sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

SOLAR DO COLÉGIO

O JONGO

A CAVALHADA

AS IGREJAS


AS REZADEIRAS


01 - RESUMO

Este trabalho tem como objetivo mostrar os fragmentos da cultura de uma região da planície goitacá, conhecida como Baixada Campista. Esta região tem uma enorme relevância histórica para o município na medida em que foi por ali, que os Sete Capitães entraram na planície até chegar a região central do município e instalar os seus currais.
Neste trabalho será mostrado a partir do Solar do Colégio, as danças que eram típicas da região como o Jongo e a Mana-Chica, além do Lanceiro, Mazurca, Fado, etc. Toda a população dessa região eminentemente católica mostra a sua religiosidade, mantendo acesas as chamas da fé nas festas de Santo Amaro e São Martinho, onde o ponto alto é a procissão e a apresentação da Cavalhada.
Além disso, será mostrado o “Fate”, doce feito de farinha de mandioca, e descoberto em uma das muitas viagens do grupo de pesquisadores pela Baixada, além de outros aspectos culturais como os versos, e a situação sócio-econômica da Baixada que viveu os tempos áureos da cana-de-açúcar até o seu fim com o descobrimento do petróleo na Bacia de Campos.

02 - APONTAMENTOS

Este trabalho teve como objetivo encontrar as reminiscências (fragmentos) da cultura da Baixada campista que até hoje estão enraizadas na âmago do povo de Campos. Foram meses de viagens, entrevistas, conversas, pesquisas em livros para compreender de que forma a cultura do povo campista foi transmitida até as nossas gerações.
A pesquisa que ora se inicia no Solar do Colégio, durante as primeiras manifestações das danças do Jongo, e da Mana-Chica, é posteriormente transmitida e retransmitida através de inúmeras gerações de homens e mulheres para todas as localidades da Baixada, de Tocos, Mineiros, Goitacazes, Donana, São Martinho, Poço Gordo, Caboio, Barra do Furado, Correntezas, São Sebastião, Saturnino Braga, Farol, Xexéu, Campo Limpo e Santo Amaro, entre outras.
Com as danças o povo da Baixada vai criando e modificando os elos com os fragmentos existentes de outrora, e essa mesma cultura avança por outras áreas, como a da culinária, dos modismos, e principalmente, do linguajar. O povo da Baixada Campista é um mestre em criar palavras e modismos diante das situações, como nos cumprimentos sociais.
Diante dessa riqueza cultural, nós pesquisadores, passamos a compreender tudo o que hoje, se nos transmite através das regras e dos ditames sociais. Frases e palavras que até hoje perduram, passaram a ser compreendidas através das inúmeras pesquisas de campo, e pesquisas em livros que retratavam o cotidiano do homem da zona rural de Campos.
O trabalho foi dividido em partes, e cada grupo se responsabilizou em colher todos os dados possíveis. Um dos grupos ficou encarregado das danças, como a Mana-Chica, o Lanceiro, a Mazurca e o irresistível Jongo. Outro grupo ficou encarregado de descobrir vestígios de palavras proferidas pelo povo nas inúmeras entrevistas e nos livros. Além de descobrir traços característicos dos muxuangos e mocorongos, que viveram na baixada.
Em linhas gerais, foi um trabalho árduo, mas gratificante, quando passamos a compreender, e dar valor ao que somos e ao que temos hoje, em termos culturais.

03 - AS DANÇAS

Durante as visitas a Baixada Campista, e as buscas das letras e da melodia de danças como a Mana-Chica e o Jongo, os pesquisadores se depararam com outras riquezas culturais como o Fado, o Lanceiro, a Mazurca. Os pesquisadores encontraram alguns remanescentes de grupos de jongueiros da Baixada, e através de entrevistas e bate-papos, conseguiram algumas letras e versos que eram cantados pelos jongueiros do Solar do Colégio.
Infelizmente, em relação as outras danças quase nada pode se apurar, tendo em vista que as outras danças foram exploradas em períodos ainda mais remotos e as novidades culturais acabaram por apagar qualquer fragmento que pudesse existir.

04 - O LINGUAJAR

Esta foi uma das partes mais difíceis do trabalho, pois que a cultura televisiva fez com que o homem da baixada apagasse os seus traços culturais diante das novidades e dos novos jargões e bordões pronunciados pelos radialistas e pelos programas de televisão. Mesmo assim, através dos livros, é que os pesquisadores conseguiram alguns raros fragmentos de como é pronunciado esta ou aquela palavra. Como o famoso cabrunco, pocar, as lambretas, enxugadores, engomadores, marimbas de pipa, a troca da letra “L” pela letra “R”, lamparão, etc.
A maior parte desta pesquisa foi feita através dos livros, mesmo assim, algumas palavras puderam ser percebidas em separado por cada um dos pesquisadores de acordo com todas as informações que os pesquisadores tinham a respeito de palavras ou expressões que até hoje são ditas e pronunciadas pelo campista em alguns bairros da cidade.

05 - MUXUANGOS E MOCORONGOS

Encontrar traços culturais de muxuangos e mocorongos foi a parte mais difícil, pois a miscigenação racial acabou por criar uma nova identidade racial e cultural, o campista de hoje. Foi através dos livros encontrados na biblioteca da faculdade que os pesquisadores foram encontrando os elementos necessários para a pesquisa.
Louros, de olhos azuis ou esverdeados, rosto largo, lábios finos, nariz reto, corpo magro e estatura variável, são as características principais dos muxuangos. Já o mocorongo é definido como moreno, de olhos castanhos escuros ou amendoados, cabelos negros e corredios, o osso da maçã do rosto em relevo, a barbicha de piaçava gasta, e a boca sempre extensa num sorriso duvidoso. Apesar de tantas diferenças ambos tem uma coisa em comum, o gosto pelas danças.
E assim através dos livros, os pesquisadores encontraram as diferenças que caracterizaram estes dois grupos que viveram na Baixada Campista.

1 - INTRODUÇÃO

1.1 - O começo da história...

O município de Campos dos Goytacazes é o maior do Estado do Rio de Janeiro, possuindo 4.4469 Km2 e uma população de aproximadamente, 500 mil habitantes. Fundada com nome de Vila de São Salvador, em 29 de maio de 1677, foi elevada à categoria de cidade, em 28 de março de 1835.
A Baixada Goitacá, Baixada da Égua ou Baixada Campista marca o início da colonização. A área possui cinco distritos: Goytacazes, São Sebastião, Mussurepe, Tocos e Santo Amaro. Começa em Goytacazes e termina no Farol de São Tomé, mais precisamente em Barra do Furado, que delimita Campos com o município de Quissamã. A história da Baixada se confunde com a história de Campos, que começa com o descobrimento do Brasil, já que no primeiro quarto do século, os portugueses tinham várias colônias na região.
As colônias foram obtidas, em 26 de março de 1539, por Pero Góis e Gil de Góis, através da Capitania de São Tomé. Depois de algum tempo os dois abandonaram a capitania, que mais tarde, em 1629, foi ocupada pelos Sete Capitães, como prêmio por sua luta contra os franceses no Rio de Janeiro. Em seguida vieram os beneditinos e jesuítas, que receberam quinhões de terras por conta da missão católica. A convivência com índios era complicada nessa época, alguns historiadores os julgaram como ferozes, sem religiosidade, ébrios e ladrões. Mas o escritor Júlio Feydit
1 alega o contrário:

“O índio Goitacá sempre deu hostilidade ao fugitivo e ao náufrago que lhe pedia proteção. Era generoso e hospitaleiro para o fraco, mas nunca se esquecia do mal que ele ou os seus recebessem, e sua vingança crescia à proporção do tempo que ele era obrigado a esperar”.

Durante vinte anos os Sete Capitães promoveram o desenvolvimento da região, mas passados algum tempo os grandes latifundiários, como o donatário Salvador Corrêa de Sá e Benevides, começaram a chegar motivados por uma escritura de composição. Os antigos capitães, que deixaram de ser sete (três faleceram), passaram a receber uma pequena parte das terras.
A data de 1648 marca o início da plantação da cana de açúcar em toda planície, iniciando o ciclo na Vila da Rainha e, depois, tomando mais força na baixada, onde começa também no mesmo período o abuso na cobrança dos impostos e pedido de posse das glebas pertencentes à capitania. Para combater esse problema, Benta Pereira, no capítulo conhecido como “As Quatro Jornadas”, liderou um movimento contra os Assecas.
O combate foi rigoroso e eles foram expulsos do lugar. Em virtude disso, o rei de Portugal comprou a Capitania Hereditária e a transformou em Capitania Real.
Por muitas décadas, a economia ficou sendo baseada na agroindústria açucareira. Das onze usinas de açúcar que existiam no município, oito ficavam na baixada: Santo Antônio, Taí, Paraíso de Tocos, Poço Gordo, Sant’Ana, Cambaíba, São José e Baixa Grande. Dessas oito, apenas a São José resistiu à crise que o setor ultrapassou nas últimas décadas
Os primeiros viajantes estrangeiros foram unânimes em comparar a Baixada Campista
2com os Campos Elíseos - “Champs d’Elisée - na cidade de Paris. Já o imortal escritor campista José Cândido de Carvalho diversificou seus romances com personagens e histórias que tiveram como cenário principal o lugar. Em “O Coronel e o Lobisomem”, o coronel era proprietário de terras na baixada, exatamente no distrito de São Sebastião. Num outro romance, “Olha para o céu Frederico”, as brigas pelas terras também se passam na região, no momento da transição entre a economia açucareira dos velhos engenhos para a modernidade das usinas.
Um fato que chama atenção é a riqueza popular encontrada nos distritos e nas localidades, as misturas de influências dos negros e portugueses se transformam nas danças, comidas típicas e na maneira de falar. Algumas festas tradicionais ainda se mantém vivas no espírito do povo até os dias de hoje.
A economia da Baixada Campista foi a grande mola propulsora da região, pois foi no berço da planície, em Campo Limpo
2, que surgiu o primeiro curral para o gado, e a agroindústria açucareira e, há poucas décadas, coincidente com a queda da economia sucroalcooleira, a indústria da cerâmica, que sustentou muitas famílias.
1 “Subsídios para a História de Campos dos Goytacazes”, Ed. Ésquilo, Rio de Janeiro, 1976.
2 Os Sete capitães chegaram à planície através da Barra do Furado e, uma vez na Lagoa Feia, adentraram aos campos limpos e fundaram o primeiro povoado.

2 - DESENVOLVIMENTO

2.1 - Santo Amaro

“O homem pode vencer o homem, mas não a máquina. É isto o que vai acontecer. Desde o advento dos engenhos a vapor o que passa na planície nada mais é do que a luta da enxada contra o maquinismo, do dono da engenhoca e deste contra o usineiro. E afinal, de toda a massa de lavradores proletariados contra uma das dezenas de grandes fábricas atuais em mãos de chegadiços e alheios às tradições da vida regional”.
“A Planície do Solar e da Senzala”, Arquivo Público do Rio de Janeiro, 2ª Edição, 1996.

Este trecho escrito por Alberto Lamego retrata, com exatidão, o que aconteceu na Baixada Campista. De acordo com ele, o progresso contribuiu para apagar da memória as formas antigas de convívio social. Mas a tradição familiar está presente, ainda, nos poucos nativos que se encontram na região.
O distrito de Santo Amaro comporta a mais importante e cultuada “Festa de Santo Amaro”, realizada anualmente, no dia 15 de janeiro. As festividades atraem milhares de romeiros vindos de toda região. São 246 anos só de festas e os campistas, principalmente os que moram em Santo Amaro, os “santamareiros”, sentem orgulho das tradições: manter os detalhes das programações religiosas, receber os devotos, os pagadores de promessas como a reafirmação da devoção ao padroeiro.
Poucos são os escritos contando retalhos dessa história, abrindo janelas por onde se pode buscar, através de registro, tudo o que vem acontecendo no avir dos tempos. Os atuais moradores não conseguem com exatidão relembrar as datas e nomes que marcaram o lugar. A escritora Delma Pessanha Neves (“Baixada Campista”, Damadá, Itaperuna), escreveu um trabalho monográfico sobre o assunto, no qual algumas referências de fatos que marcaram a época orientam sobre as origens do lugar. Ela cita (p.12):

“Os antigos da cidade contam que a primeira capela do povoado foi construída por desejo de Santo Amaro. Segundo eles, a imagem do santo estava na igreja do Mosteiro, localizada no povoado de São Bento. Conta a lenda que um dia ele desapareceu do altar. Após muitas buscas, foi localizada num montículo de terra, onde depois foi erguida a capela em homenagem ao Santo. Os padres retornaram com a imagem para São Bento, mas outros desaparecimentos ocorreram e em todos às vezes a imagem foi localizada no mesmo lugar. Em virtude desse fato, foi construída a capela para abrigar a imagem de Santo Amaro”.

Segundo documentações encontradas no mosteiro de São Bento, a primeira capela erguida no povoado foi em 1735. A reconstrução aconteceu 60 anos depois, entre 1795 e 1798. Só na primeira metade deste século é que ela foi remodelada, recebendo as duas torres.
De acordo com Delma (apud Construtores e Artistas do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro), a imagem que está presente, ainda hoje, na igreja é a de 1790. Essa imagem é uma das mais antigas que a Ordem recebeu. Ela permaneceu no Rio até 1789, quando foi transferida para o arraial de Santo Amaro.
Dentre os documentos antigos que narram os festejos, há uma publicação do jornal “Monitor Campista”, fazendo convite à população para a festa do ano de 1865. O texto é o seguinte:

“Os festeiros do Glorioso Santo Amaro, Sebastião Ferreira de Souza, José Francisco Barbosa e Belarmino da Rocha fazem ver ao respeitável público e aos devotos do Glorioso Santo Amaro (sic) que no dia 14 e 15 corrente, celebrarão a festa do mesmo santo, na capela de Santo Amaro. Havendo na véspera cavalhada, à (sic) uma hora da tarde, e à noite sermão e fogos de artifícios, e no dia 15 missa cantada e sermão. A festa de sábado é feita toda pelo Sr. José Francisco Barbosa”.

Os nomes que encabeçam o convite são dos festeiros e juízes responsáveis pela ajuda financeira da festa. São eles que dão todo suporte de roupas, comidas e arrumação para receber os visitantes. Na maioria das vezes, são fazendeiros ou negociantes que têm um bom rendimento para ajudar na comemoração do santo.
Os festeiros se subdividem em festeiro principal, de mastro, de fogos e de cavalhada. Existe também a figura do procurador, que é escolhido entre eles para ajudar na arrecadação de donativos. Todos os anos, o festeiro é indicado pelo seu antecessor, organizando a lista de juízes e colaboradores.
Neste ano de 2003, os moradores acostumados com a produção da festa sentiram dificuldade para receberem os donativos, revelando uma crise, também financeira, para a realização das festas. É o que conta a costureira mais antiga do lugar, dona Maria da Conceição Ramos, 76 anos:

“Tive que me comprometer com as lojas. Fui até Campos comprar os tecidos para as roupas. O dinheiro que nos ajudou foi o da própria igreja, que faz uma série de atividades para arrecadar fundos. Pela primeira vez vamos ter que aproveitar as roupas da cavalhada no próximo ano”.

A história de vida de Conceição se confunde com a festa e é conhecida em todo lugarejo. Há 46 anos ela se dedica à costura das roupas dos cavaleiros que participam da cavalhada. Azul para os cristãos e vermelho para os mouros. Hoje, com a vista cansada apenas orienta outras costureiras no serviço, mas no fim sempre ajuda nos últimos detalhes. Da varanda de seu rancho, uma visão privilegiada, ela vê o cenário de toda a festa: a igreja ao fundo e bem na frente o campo do Pinheiro Machado, onde acontece a emocionante cavalhada. Ela faz uma narrativa sobre o acontecimento:

“A praça fica completamente cheia a ponto de termos de socorrer todos aqueles que precisam de alguma ajuda. Aqui em casa esse não é o problema. Se for para adorar Santo Amaro, está tudo bem. Pois, Santo Amaro é milagroso”.

A preparação não fica apenas em torno do movimento da igreja. Os moradores, não só de Santo Amaro, mas também de outros distritos, se envolvem para que nada dê errado. Delma (Op. cit., p.14) acrescenta, com riqueza de detalhes, o que é feito pela comunidade:

“Nesse período de tempo, todo o povoado se prepara para a festa. As casas são pintadas. Os moradores fazem roupa nova ou a roupa da festa. A igreja, o coreto e os postes são pintados. As árvores e arbustos são podados e têm pintados (sic), em branco, parte do tronco. A praça principal fica toda iluminada.
Nas noites que antecedem à festa, há torneios de futebol de salão, quando participam equipes de localidades vizinhas. Durante os dois dias anteriores ao da festa, as barraquinhas, que se dedicam ao comércio de alimentos, bijuterias, artigos religiosos e também (sic) o parque faz a festa da criançada”.

O padre Gilberto Araújo Alvin, 26 anos, é o responsável pela realização de missas em 31 comunidades da Baixada e dentre todas a igreja que mais atrai devotos é a de Santo Amaro. Todo o domingo é realizada a tradicional missa das 10 horas da manhã, quando dezenas de pessoas superlotam o sagrado templo à procura da benção do santo milagroso.
- A devoção ao santo atinge não só a Baixada, mas, igualmente, outras regiões. A festa tornou-se tão importante que já se tornou feriado na cidade de Campos dos Goytacazes
3 - lembra o Padre Gilberto, com brilho em seus olhos claros e significativos. Ele tem apenas um ano e meio de ordenação e já adquiriu grande responsabilidade em todas as comunidades que atende, embora atraia olhares mais insinuantes da mulherada.
É um ano inteiro de preparação até chegar o esperado 15 de janeiro, aniversário do padroeiro. São várias as etapas da festa: a cavalhada, o novenário, procissão, ladainha, leilão, hora dos fogos de artifícios e das missas, sem contar as barraquinhas integrantes da parte profana das comemorações e os shows patrocinados pela Prefeitura de Campos.
3 A Associação Comercial e Industrial de Campos vem protestando contra o feriado do dia de Santo Amaro, argumentando que o feriado deveria ocorrer somente na Baixada Campista.

2.2 - As Cavalhadas

De todas as atrações da festa do padroeiro, a cavalhada é a mais cobiçada, tanto pelos participantes como por espectadores formados por curiosos, professores, pesquisadores e gente do povo. Segue abaixo alguns dos registros encontrados na Biblioteca Municipal Nilo Peçanha, da Prefeitura de Campos dos Goytacazes.

“Uma festa que os participantes consideram “herança recebida para transmitir” (sic), a prática de acordo com os costumes ibéricos antiquíssimos vem desde o século XVIII. No Estado do Rio, realiza-se em dias de santos padroeiros, e não chega a constituir-se em um auto, pois, não há dramatização. Significa, antes, a encenação de justas e torneios medievais. Os grupos se defrontam representando os mouros e cristãos, mostrando o que aconteceu na chamada Guerra Santa, que existiu durante séculos na Europa, mais exatamente na Itália”.

O que deixa a festa ainda mais bonita é o amor com que a comunidade atua de modo a deixar tudo em ordem, tratando todos aqueles que chegam como irmãos. Os relatos mostram esta realidade:

“A total participação e adesão dos moradores é o de mais importante na festa. Não só os cavaleiros, mas também os vizinhos, amigos e filhos, tomam parte da preparação das montarias, e tudo se faz dentro de um clima alegre, mas de inteiro respeito, sem abuso de bebidas, conversas zombeteiras ou uso de palavrões”

Essa tradição ainda cultivada na Baixada encanta os poucos que apreciam, ainda, a importância da cultura popular para o povo, e a predominância das gerações. Essa cultura que está nas constantes pesquisas, nas visitas, quando conversamos com pessoas entranhas que parecem nos conhecer há muito tempo, são nos olhos dessas pessoas que está a chama dessas tradições, já sofrendo os efeitos do mito da destruição (Osborne apud W.Benjamim), mas ainda forte pela relação muito mais que mítica da população com seu santo padroeiro, visto muito mais pela sua transcendência
4.
4 O conceito do professor Emmanuel Carneiro Leão, emérito da UFRJ, assinala que entre a imanência e a transcendência o homem é acometido pelo delírio.

2.3 - São Sebastião

Palco das grandes mudanças realizadas na história, o distrito de São Sebastião conta fatos da cultura e da economia do município de Campos dos Goytacazes. É o maior no número de habitantes, uma vez que ultrapassa a 14 mil, segundo o IBGE. Mostrando os relatos dos trabalhadores de usinas próximas, comerciantes, bordadeiras e do próprio padre da paróquia, o quebra-cabeça do tempo vai se montando.
A primeira construção na localidade foi a capela de “São Sebastião”, datada de 1786, contando 207 anos e, por isso, seus registros são usados como fonte de pesquisas para muitos historiadores da região. O padre Lenilson Alves dos Santos, 26 anos, responsável por mais 14 outras capelas das comunidades próximas, pensa no futuro criar um museu com o levantamento dos séculos de existência da construção. Ele assinala:

“Mesmo não tendo confirmação em registro, acredito que esta seja a igreja mais antiga de Campos. Os livros de batismo e casamento que ainda existem comprovam sua antigüidade. Penso futuramente reunir vários documentos e tentar montar um mini museu na capela, isso atenderia muitas dúvidas de toda população”.

Imagens datadas da fundação da capela ainda fazem parte do altar: o padroeiro São Sebastião, no altar-mór; São José, no altar ao lado; e o Crucifixo, ao centro. São todas no estilo barroco, detalhadamente trabalhados e trazidos pelos jesuítas na colonização. A arte barroca muito difundida pelo homem no século XVII trouxe novamente a dedicação às coisas de Deus. Explicação encontrada no livro Literatura Brasileira, de William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães, Editora Actual, 1995, p 44:

“O Barroco na arte marcou um momento de crise espiritual da sociedade européia. O homem do século XVII era um homem dividido entre duas mentalidades, duas formas diferente de ver o mundo. Uma nova onda de religiosidade foi trazida pela Contra-Reforma e pela fundação da Companhia de Jesus”.

Pelas ruas do lugarejo o movimento é tranqüilo e quem viveu aqui a vida toda, como dona Maria Geni Cordeiro, 73 anos, conta que há algumas décadas não era assim. Principalmente porque o lugar era cortado pela Estrada de Ferro, fazendo com que o comércio fosse vasto e a população pudesse desfrutar das mais variadas opções.

“Tínhamos desde do prego até a seda importada, podíamos comprar de tudo. A economia era bem diversificada. Depois, com o surgimento das usinas, a população passou a trabalhar nas usinas de Poço Gordo e do Taí, alguns fazendeiros forneciam cana-de-açúcar para a usina de Cambayaba. Com a falência das três a população passou a trabalhar nas cerâmicas. Por enquanto são os pequenos comércios e as cerâmicas que sustentam a população”.

A Estrada de Ferro Campos-São Sebastião foi inaugurada no dia 5 de julho de 1873, tinha extensão de 19.930 metros, fazia o percurso: Campos, Cruz das Almas, São Gonçalo, Campo Limpo e São Sebastião. O primeiro ramal ferroviário do interior do Estado foi implantado em Campos, graças a figura do campista João de Sá Vianna e do alemão Rodolpho Evaldo Newbern. De acordo com o departamento de pesquisas do jornal campista “A Cidade”, publicado no dia 5 de julho de 1973, p7, naquela época as ferrovias foram se espalhando por todo país.

“Ao início da segunda metade do século passado, precisamente em 1854, era inaugurada a primeira ferrovia brasileira - Estrada de Ferro Mauá, na Província do Rio de Janeiro. Foi o ponto de partida para difusão desse melhoramento em várias províncias de norte a sul do país, particularmente da década de 70”.

Em 1888, surgiu mais dois trajetos diferentes: a Estrada de Ferro Macaé-Campos e Estrada de Ferro do Carangola. A empresa Leopoldina Railway fez a interligação dos três trajetos através da ponte construída sobre o rio Paraíba. Conhecida até hoje como “Ponte de Ferro”. Mas o general Pinheiro Machado, morador na época da freguesia de Santo Amaro queria que o trem seguisse até o lugar. Como conta o jornal “A Cidade”:

“Com permissão do prefeito Julio Feydit foi prolongada a ferrovia. E dentro em pouco a ponta de trilhos chegava a Santo Amaro e da sua estação até o sobrado de Boa Vista foi construído pequeno ramal férreo, servido como bonde de tração animal, para atender o general Pinheiro Machado. Por quase um século a linha Santo Amaro serviu à Baixada Campista até ser considerada um ramal deficitário”.
De 1963 a 1964, fez se uma tentativa para sua reabilitação no transporte de passageiros, passando a funcionar como trem de subúrbio. Ao final de 1964 foi suprimido o trem de passageiros, por não suportar a concorrência com o ônibus. A predominância nacional do transporte rodoviário sobre a ferroviária foi marcante nessa época”.

Uma outra fonte de renda que auxiliou muito no orçamento doméstico dos moradores do distrito foi das rendeiras, uma profissão, passada de mãe para filha, que movimentava todas as mulheres da casa. Por muito tempo a produção rendia um bom dinheiro e era vendida na cidade. É o que conta Dona Geni:

“As mães ensinavam os biquinhos, a fazer colchas e o croché, era tudo passado naturalmente de mãe para filha. O que rendia também um dinheiro no fim do mês para ajudar nas despesas da casa. Hoje não se encontram mais as tradicionais rendeiras, apenas alguns paninhos que lembram aquela época”.

Com lágrimas nos olhos ela afirma que a história está esquecida e lamenta por ter perdido o pai quando tinha apenas 7 anos. Julga que se tivesse convivido mais algum tempo com ele saberia orientar bem melhor os curiosos:

“Sei que é um dos distritos mais antigos de Campos. Aqui existia o “Culto ao Divino”
5 sempre no mês de novembro, muito parecido com o que os nordestinos fazem. Talvez essa cultura tenha vindo junto com a cana. Outro fato importante de ser lembrado foi que aqui neste pequeno distrito já teve até um jornal. Se eu tivesse convivido com meu pai mais alguns anos poderia ser uma fonte maior de informação. Sinto muita saudade, a gente sempre tem saudade do passado. Algumas pessoas foram embora por falta de emprego ou por quererem tentar a vida fora. Eu fiquei porque amo esse lugar”.

Valdinéia Henrique de Almeida, 47 anos, é filha de rendeira, só que não aprendeu com a mãe e, na verdade, nunca conseguiu entender o trabalho manual como renda. Mas ganha a vida como a mãe, só que fazenda marca e croché.

“As pessoas não dão muito valor a tanto trabalho, acho que na época de minha mãe a valorização era maior. Eu por exemplo faço todo o trabalho e vendo para dona de uma loja em Cabo Frio. Aqui por todos já conhecerem a arte poucas pessoas compram”.

E assim vai se costurando a história do pequeno distrito feito de rendeiras, das mãos de operários já envelhecidos nos trabalhos das antigas usinas, ricos fazendeiros, dos mais jovens que persistiram em ficar no lugarejo que agora trabalham nas cerâmicas ou no comércio. E finalmente da fé católica dos fiéis vigiada pelo guardião “São Sebastião”.
5 Na realidade, trata-se da Festa do Divino Espírito Santo, com suas bandeiras vermelhas, suas figuras de príncipes e a solenidade do coroamento do Rei Menino.

3 - Igreja mais antiga

3.1 - Nossa Senhora do Rosário, de Campo Limpo

De acordo com os moradores da localidade de Campo Limpo, nos caminhos do Farol de São Tomé, a Capela de Nossa Senhora do Rosário é a primeira construção da Baixada Campista. As terras para sua construção foram doadas pela viúva de um dos “Sete Capitães”, Antônio Riscado. Sua arquitetura foi construída em estilo barroco pelos padres jesuítas e na parte de cima há, ainda, grandes orifícios por onde os padres atiravam com seus arcabuzes contra os índios.
No livro “O Homem e o Brejo” de Alberto Ribeiro Lamego, 2º edição, 1974, editora Lidador, p. 95, o autor resume relatos que comprovam a antigüidade do povoado.

“Com os dois currais então erguidos, nasce definitivamente a pecuária em Campos. O primeiro, a 8 de dezembro de 1633, em Campo Limpo, ao norte da Lagoa Feia. Levantam uma choupana coberta de palha para o índio Valério Corsunga, vindo com eles de São Vicente, e ao seu cuidado ficam três novilhas, uma vaca e um touro”.

Com 400 anos de história, a capela que fica à margem da RJ-216 ou, como é conhecida, Estrada do Açúcar. A igreja ainda sobrevive ao abandono, consumida pelo mofo, marimbondos e infiltrações, a comunidade pede ajuda para resgatar a história.
Terezinha Nogueira da Paixão, 64 anos, é uma das moradoras que se dedicam aos cuidados com a capela. Cansada de encaminhar para as autoridades locais pedidos de reformas, ela junto a outros moradores fazem o que pode para não deixar morrer o patrimônio que dá sentido ao lugar.

“A necessidade é de reforma geral, paliativo nós mesmos estamos fazendo. A comunidade está conservando, se nós não fizermos nada, tudo caí como já aconteceu. Conseguimos trocar o piso da capela, colocamos granito no altar e arrumamos a capela do santíssimo. Só na parte de fora que não conseguimos fazer nada”.

O Instituto Nacional de Patrimônio Artístico e Cultural fez o tombamento da parte de trás da capela e também do cemitério. No chão ainda existem os tijolos com mais de quatro séculos de existência e a imagem original de Nossa Senhora do Rosário ainda está presente, toda de madeira e banhada a ouro. Mesmo com a ação do tempo e do cupim a imagem ainda se conserva. Com medo de furtos, os moradores colocam a imagem no altar apenas em algumas ocasiões festivas.
As missas continuam a acontecer aos domingos e a capela funciona sobre responsabilidade da Paróquia de São Sebastião e o responsável é o padre Lenilson Alves dos Santos.

3.2 - Capela de São Sebastião

Com certeza a Capela de São Sebastião, situada no distrito que leva o mesmo nome carrega consigo grande parte da história da Baixada Campista. Os registros dos seus livros de batismo e casamento revelam moradores e famílias históricas de toda região. Com o tempo muita coisa se perdeu, mas o que restou dá para montar um quebra-cabeça que ficou perdido na linha da história.
A igreja data de 1786 e 217 anos de história, mas de acordo com o padre Lenilson, que há um se dedica à paróquia e às 14 capelas das comunidades ao redor, a capela é a mais antiga do município. Mesmo sem registros ele acredita que tudo começou no distrito de São Sebastião.

“A igreja data de 1786, mas com certeza não é o ano exato, naquela época se levava muito tempo para se fazer a construção. De acordo com fontes históricas a igreja foi construída nas terra dos donatários e aqui também foi uma freguesia de Dom Pedro. Por isso a confirmação da sua antigüidade”.

3.3 - Capela de Donana

Donana é o lugarejo da Baixada Campista mais próximo da cidade de Campos, e ali também se encontra uma das capelas mais antigas, a de Nossa Senhora do Rosário”, dedicada à mesma padroeira de Campo Limpo. Quem zela pelo lugar há 61 anos é o ancião Benedito Francisco Martins, 81, que não se cansa de cuidar desse patrimônio histórico.
Segundo Benedito, a capela tem 403 anos, foi construída pela família Carneiro da Silva, que era proprietária da Fazenda Visconde. Depois de alguns anos a construção foi requerida pelo Estado e, enfim, tombada pelo Patrimônio Histórico. Há três anos toda a estrutura vem passando por reforma geral.
De acordo com uma publicação feita no Jornal “O Dia”, em 30 de setembro de 2003, relatando uma entrevista com o secretário de Planejamento José Luiz Puglia
6, a reforma deve ser concluída nos próximos quatro meses.

“Iniciada em 2001, a restauração da igreja foi retomada. A prefeitura está investindo R$ 400 mil na restauração do teto e toda arquitetura da igreja”.

Mesmo triste com a paralisação das atividades religiosas o guardião da capela “Nossa Senhora do Rosário” fica ansioso para ver tudo pronto e relembra os anos de dedicação e devoção à Nossa Senhora, mãe de Jesus Cristo.

“Fico triste, tem gente que chora porque a igreja está fechada. Eu fico com saudades, mas não vejo a hora de ficar tudo bonito novamente. Tenho 81 anos, se não tivesse uma padroeira dessa não viveria tanto”.
6 A municipalidade de Campos tem projetos para a restauração de outros prédios históricos, como a Igreja do Rosário, no centro da cidade; a sede da Lyra de Apolo; o Solar dos Airizes e o Solar da Baronesa.

4 - Prédios históricos

4.1 - Solar do Colégio

“(...) Solares saudosos, imensos, desertos, repletos de história. De canto em canto acocorados como “babás” centenárias, fitam incompreensivelmente cegos o presente, com os olhos parados das janelas vazias” (...).
Lamego, Alberto Ribeiro. “A Planície do Solar e da Senzala”, Arquivo Público do Rio de Janeiro, 2ª Edição, 1996.

A casa dos jesuítas, a qual integra a capela, edificação do século XVII, popularmente conhecido por Fazenda do Colégio, em Tocos, na Baixada Campista, com passagem pela formação do município de Campos dos Goytacazes, é uma marca de seus principais fatos e vultos. Em suas propriedades, os jesuítas colocavam marcos em pedra, com o símbolo da Ordem Jesuíta, que significa: “Tudo em nome do Senhor”.
Joaquim Vicente dos Reis, segundo relato num folder encontrado no Arquivo Público Municipal, foi o herdeiro das terras do solar dos jesuítas, tendo, no final do século XVIII, uma das fazendas mais produtivas da região. Este nobre veio a falecer no dia 9 de abril de 1813, deixando a propriedade para seu genro, Sebastião Gomes Barroso.
Na fazenda do Colégio existia uma grande criação de gado, cavalos, suínos e outros animais de corte. Havendo, também, plantio de mandioca para produção de farinha, feijão, arroz, milho, cana-de-açúcar destinada ao engenho próprio que atendia toda região; e de algodão, para confecção de pano branco no tear da fazenda, com o qual se costurava roupas dos escravos e sacaria para os produtos do bangüê.
Foi considerada durante anos a maior fazenda da Baixada Campista e seu engenho de açúcar, segundo Couto Reis (apud March, p.51)
7, figurava entre as de maior importância da época, superando a de outros proprietários das redondezas.
Morador do Solar do Colégio, o próprio escritor (March, p.52) resgata parte da história do lugar através de lembranças e saudades. Em um dos trechos descreve, com detalhes, o que continha na fazenda no ano de 1785, destacando a importância de sua riqueza.

Escravos, 1.482 criaturas; gado vacum, 9.625 cabeças; gado cavalar, 4.017 cabeças; açúcar, 8.618 arrobas; algodão 46 arrobas; aguardente, 10.550 medidas; milho, 380 alqueires; feijão, 260 alqueires; arroz, 300 alqueires; farinha, 331 alqueires; pano branco, 800 varas.

Não é só o extenso crescimento econômico que deslumbrava o solar com suas histórias que fascinam até hoje, mas como sede de intensas movimentações políticas e culturais mais freqüentes. No século XIX figuras ilustres como Saldanha da Gama, D. Pedro II, a Imperatriz D. Teresa Cristina, a Princesa Isabel e o Conde D´Eu se hospedaram, regiamente, no Solar do Colégio, fazendo largos elogios não só quanto à sua grandeza arquitetônica, mas, principalmente, com relação à sua organização administrativa, não faltando encômios à hospitalidade de seus proprietários.
A construção, segundo publicação na imprensa
8, foi tombada pelo SPHAN - Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - (atual IPHAN), em maio de 1946, sendo desapropriado, em 29 de maio de 1977, pelo Governo do Estado. O último dos Barroso a morar no local foi João Baptista, falecido em princípios de 1980. Era uma pessoa antenada com seu tempo e mantinha, em Goytacazes, o cine-teatro, hoje em ruínas, onde foram exibidas, durante décadas, as mais importantes produções de Hollywood e de grupos amadores e companhias brasileiras de teatro.
A procuradoria Estadual determinou a emissão de posse em maio de 1980, mas a família vigiou e protegeu a propriedade até 1984, quando a medida foi cumprida. As terras ficaram abandonadas por cerca de 10 anos. Em seguida a UENF (Universidade Estadual do Norte Fluminense), por inspiração do professor Darcy Ribeiro, iniciou o processo de recuperação do edifício, pretendendo transformá-lo na Escola Brasileira de Cinema
9, só que o projeto não chegou a se concretizar. As obras ficaram paradas até 2000, quando foram finalizadas com o intuito de abrigar o Arquivo Público Municipal, criado em maio de 2001, pela Lei nº 7060, e inaugurado em 28 de março de 2002, sob a égide da Fundação Cultural Oswaldo Lima, da Prefeitura de Campos dos Goytacazes10.
Nesses 10 anos de abandono, várias foram as pessoas que lamentaram a morte viva da história de Campos, morrendo com a erosão e o desprezo, como se não bastasse o efeito do tempo. Mas, também, muitos foram aqueles que furtaram peças de valor do Colégio. Alguns escritores deixaram gravadas suas revoltas pela perda do precioso tesouro cultural. João Oscar
11, no prefácio do livro de March, escreveu:

“O secular e senhorial “Solar do Colégio”, plantado com o suor e sangue pelos Jesuítas na espraiada planície campista está quase morto. Reviou-o (sic) com olhos desvanecidos de ternura, logo marejados de lágrimas de saudade e desencanto. O velho sobradão, testemunha viva de fatos históricos legendários, cenário imorredouro da memória fluminense e nacional agasalho de varões ilustres e sinhás de fibra, depositário das cinzas e recordações de heróis e matronas, cenário de engenhos fumegantes e senzalas alvoroçadas, deparou-se como um fantasma sombrio à sua frente (...)”.

De acordo com o diretor do arquivo Carlos de Assis Freitas, está sendo feita uma detalhada recuperação da história do Solar, buscando as pessoas que compartilharam com a vida da fazenda e também restos da casa. O Arquivo Público Municipal tem como projeto a restauração e preservação de toda documentação da prática administrativa do município, apoiado pela FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro), tem o objetivo também de prestar serviços à comunidade, guardando documentos da cidade de forma correta e fazendo reparos para a utilização. E acrescentou:

“É importante que a população campista saiba de sua história, as crianças devem apreender nas escolas todos os detalhes da colonização até os nomes mais importantes que marcaram os tempos. Isso é cultura”.
7 Verde Planície, Verde Solar”, Antogui Barroso March, Editora Cromos, Niterói, 1988.
8 O documento encontrado na Biblioteca Municipal não cita o título do jornal e nem a data da publicação. Aliás isso demonstra a despreocupação antropológica da instituição, o que dificulta o resultado da pesquisa científica.
9 A escola teria o modela da escola cubana e para aqui vieram os cineastas Orlando Sena e Geraldo Sarno com o objetivo de instalar o primeiro curso, que, inclusive, chegou a anunciar o seu vestibular. Depois o plano gorou e os cineastas voltaram às suas atividades no Rio de Janeiro.
10 Na inauguração, pela primeira vez na história, no espaço da capela de Santo Inácio de Loyola, apresentou-se um grupo de negros, com parte do espetáculo “Ilê Sain a Oxalá”, por conta da Núcleo de Arte e Cultura de Campos. O espetáculo causou uma comoção coletiva, levando os presentes às lágrimas, incluindo a pesquisadora Lana Lage.
11 O escritor João Oscar do Amaral Pinto, autor de “Kurucango Rei”, residente atualmente em São João da Barra.

4.2 - Os antigos moradores

Geraldo Gomes Rangel, conhecido como Geraldo Anjinho, 62 anos, hoje morador do distrito de Goytacazes, em Campos, passou toda sua infância nas terras da fazenda do Colégio. Com a urbanização de outros pontos da cidade e a falta de emprego algumas famílias foram obrigadas a deixar o lugar. Incluindo a família de Geraldo, porque era preciso procurar escolas para as crianças e empregos para os mais velhos. Por isso acabou por optar, como muitos optam, por abandonar as raízes das famílias.
Das histórias dos bons tempos, segundo Geraldo, nada se compara às festas, danças e comidas típicas, que todos faziam na fazenda. Num rasgo de saudade olha um pouco para esta história situada no passado:

“Eu dancei o Jongo, Mana-Chica e outras danças. O tempo foi ingrato e já não me recordo de muitas letras e sinto muitas saudades da reunião com os amigos que já se foram”.

De acordo com outros moradores da Baixada Campista, as festas aconteciam no campo da fazenda e reuniam diversas pessoas junto à roda para o Fado, Mana-Chica, Mazurca, entre outras que a lembrança dos mais antigos já não consegue alcançar. No livro de Lamego (op, cit. p.37) há um relato que lembra bem esses tempos:

“As festas do Colégio seguiam dias a fio. Com os seus banquetes formidandos, com suas danças guerreiras de negros e índias, ante a fachada cingida de luminárias e sob o estrugir das salvas da Mosquetaria da Ordenança
12, pelas noites fantasmagóricas de artifícios, foram as maiores que se viram na capitania”.

O que não falta são perdidas lembranças dos moradores que viveram ouvindo as lendas passadas pelos mais antigos. José da Penha Trindade, 69 anos, viveu 40 deles servindo à família Barroso, cuidando da casa grande e plantações, diz que gostava mais era de realizar serviços na Capela de Santo Inácio
13, “sempre silenciosa na ausência das celebrações litúrgicas”.

“Santo Inácio nasceu no ano de 1491 em Azpeitia, província de Guipúzcoa, região dos bascos conhecida como "Vascongadas". Caçula de 11 irmãos, ficou órfão de mãe aos 8 anos de idade e de pai aos 14 anos. Aos 23 anos foi para Salamanca, para estudar na famosa universidade do mesmo nome e, mais tarde, completa seus estudos de filosofia e teologia na universidade Sorbonne, de Paris. Inácio sempre mostrou-se contrário a estas correntes e, fiel à igreja de Roma, passou a trabalhar decididamente mais pela "Renovação" do que pela "Reforma" da Igreja. Durante este período na capital francesa, conseguiu conquistar para a causa da fé mais seis companheiros da universidade, entre os quais Francisco Xavier, futuramente o apostolo da Índia e do Japão, declarado padroeiro das missões. Com estes companheiros, faz os votos em Monmartre, deixando claro que o ideal de seguir a Jesus se identificava com o serviço à Igreja e ao Romano Pontífice e funda a Companhia de Jesus”.

A convite da equipe de pesquisadores desta monografia, o conhecido “Zé Trindade”, volta às dependências do Solar e ficou difícil para ele conter as lágrimas. Andando pelos longos corredores e dezoito cômodos, a casa divide-se em pavimento térreo, andar superior e fundos, mas não há mais senzalas e pelourinho. Tudo com marcas de muita história.

“A capela não tem mais nada como antes. Cada pedaço deste lugar vem algumas lembranças, nomes dos patrões e de alguns funcionários da fazenda. Desde quando tive que ir embora e o prédio foi entregue para o governo do Estado, há vinte anos, não tive a oportunidade de entrar. Hoje, olho com saudade dos velhos tempos”.
.
Os nomes dos antigos companheiros foram aparecendo na medida em que o vento nordeste, sempre pródigo na região, refrescava sua mente:

“Lembro-me de Manoel Gomes, faleceu com 70 anos e já se passaram 40 anos desde a sua morte. “Biru”, assim era chamado por todo mundo das redondezas, trabalhador antigo da fazenda, era responsável por tocar e fazer trovas para as festas nas noites de luar. Animado, não deixava ninguém ficar parado e a cachaça mais ardente nunca faltava nas rodas para molhar as palavras nas festas cheias de encantamento. Os homens batiam palmas e as mulheres rodopiavam balançando os vestidos de chita, algodãozinho ou tafetás. O cântico forte dos velhos negros falecidos parecia ecoar pela noite a dentro”.

Nos meses de maio, exatamente nos dias 13, os tambores esquentavam as noites frias do Colégio. Era para relembrar os tempos quase esquecidos da escravidão. Em cada cômodo que Zé Trindade passava, relembrava uma história, lembrou das mobílias que faziam parte da casa grande e de cada detalhe da rotina do lugar:

“Aqui no segundo andar, parte central da casa grande, era o quarto de Dona Totó, uma prima dos Barrosos, que também morava na casa grande. Conta a história que depois que terminou um namoro ficou muito magoada e resolveu se trancar no quarto até morrer. Não saía para nada, as pessoas viam apenas seu rosto. Lembro que era engraçado o jeito que cuidava da sua higiene pessoal e das necessidades materiais: enrolava as fezes num jornal e jogava pela janela pros criados”.

Quem também relata, com detalhes, um dos pontos mais visitados do casarão – os jardins”, é Tereza Augusta Barroso (March, p.33). A suavidade nos detalhes que ela descreve faz o leitor voltar a décadas passadas.

“Circundava todo muro do jardim um canteiro estreito, com roseiras e diversas outras plantas e flores bonitas. Também este canteiro passava junto as paredes da igreja arredondando suas extremidades e onde eram plantados lírios, lágrimas-de- vênus e tinhorões. Junto ao muro, do lado direito, ficava um grande tanque, quase da mesma altura, com aquela bomba antiga e pesada, exigia que as crianças nele se dependurassem para movimentá-lo. A torneira era enorme com um braço de ferro para abrir”.

Lamego (op. cit. p. 41), acrescenta em seus registros traços que identificam a capela de Santo Inácio antes da reforma:

“O altar de São Miguel surpresa-nos com peculiaríssima originalidade. Entre as pilastras laterais, sinuosamente emoldurantes, entalham-se nas circunvoluções decorativas quatro cabeças angelicais. Os cabelos em gomos ondulados sobem-lhes na frente, e descem pela nuca, encachoeirados, esteriotipando-se no baixo relevo do painel”.

Ataíde da Penha Trindade, 62 anos, o mais novo dos irmãos Trindade, diz que há 35 anos não dança, como na infância, e acrescenta que os antigos não conseguiram passar a cultura para os mais novos por conta das modernices. “A quadrilha perdeu o respeito, o marcador fala bobagens e o cavalheiro, na maioria das vezes, cai no ridículo levantando a dama”, criticou.
Na casa de Carlos Juarez Moço, 72 anos, um dos irmãos do falecido Zé Embate (conhecido como o maior tocador de jongo da Baixada), perguntamos sobre as histórias do Colégio. Com um sorriso nos lábios e um jeito muito tímido, veio logo com este verso fragmentado de um fado antigo, por ele repetido muitas vezes, revelando ter se esquecido do restante da modinha.:

“No domingo
faz quinze dias
que a ponte
caiu, caiu, caiu ...”

Com marcas de cansaço no rosto por causa dos longos anos na enxada e do labutar diário nos aceiros, Moço, lembrando com saudade do irmão, não deixa de mostrar a satisfação quando se fala das festas do Fado, Mazurca, Folias de Reis e dos Bois Pintadinhos.

“Da vida que levava lá o que mais me recordo são os bailes. Quando dançávamos Fado nunca acontecia confusão, já quando o baile era de Mazurca o diabo ficava solto no salão. Continuamos dançando aqui, em Goytacazes, mas foi só até José Embate morrer
14, depois tudo acabou”.

As décadas passaram e a tradição não foi preservada pela filha e pela neta. Moço relembra as danças e sente saudades. Ainda tenta buscar na memória uma daquelas famosas cantigas que eram cantaroladas nas lavouras na hora do trabalho e, enfim, cantadas em alto e bom tom nas festas faceiras das noites dedicadas aos santos padroeiros. Por fim só alguns trechos do Esquinado, uma espécie de Fado, são lembrados:

“Esquinado tirava a dança
e ficava esquinado,
esquinado dança balanceado...”

A dança Esquinado, relatada por Moço é, portanto, uma derivação do Fado, como o é a Mana-Chica do Caboio. Alguns registros da origem do Esquinado foram encontrados no livro “Dicionário de Folclore Capixaba”, de Luiz Santos Neves.

“(...) A dança do Esquinado foi popular no norte do Brasil tendo chegado também ao Espírito Santo. Villa-Lobos aproveitou o tema do Esquinado no seu Choro nº 12, colhido através de informante do Espírito Santo (sic). Como dança, o Esquinado perdeu-se primeiro do que a memória dos seus versos. Estes ainda sobreviveram na lembrança de pessoas antigas (...)”.

E assim surgem cada vez mais estórias do poderoso, e agora adormecido império, entregues apenas à curiosidade dos historiadores. Nas casas da Baixada Campista não há sequer um cidadão que morou ou, de certa forma, desfrutou da fazenda, que não conte algum “causo” ou sinta de alguma forma saudade das festas e da vida simples que lá se levava. Na epígrafe do livro de March, p. 33, o texto de Aloísio Magalhães, sintetiza este tipo de recordação, como se segue: “O tempo cultural não é cronológico. Coisas do passado podem, de repente, tornar-se altamente significativas para o presente e estimulantes do futuro”.
12 O costume de mosquetaria ainda permanece no sertão nordestino. Mas, na baixada, Lamego faz a única alusão a este costume. Talvez um dos primeiros a serem esmaecidos pelo tempo.
13 www.puc-rio.br/info/loyola/bioinac.htm, tem uma ligeira biografia desse também importante padroeiro da Baixada:

14 Dois meses antes de falecer, José Embate, por proposta de Geraldo Anjinho, foi homenageado por uma apresentação do jongo do Núcleo de Arte e Cultura de Campos, com um espetáculo no quintal de sua casa, em Goytacazes. Ele foi fotografado pela reportagem do Jornal Folha da Manhã, tocando sua tambor “Corre Mundo”, defronte ao Solar do Colégio.

4.3 - História dos descendentes

“É como se ele tivesse voltado, a bisneta dançava e o pequeno Zezinho tocava o tambor novamente as cantigas de Jongo e Mana-Chica. Tenho certeza que quando as crianças entram na roda é porque José Embate está aqui”.

Quem enfatiza esta frase é Maria Antônia Gomes, 70 anos, cunhada do falecido José Embate, responsável pela divulgação do Jongo, Mana-Chica e diversas danças remanescentes em toda Baixada Campista. Passados dois anos de sua morte a família lembra com saudades do batuque no quintal e da felicidade do patriarca ao tocar suas canções de infância. Sua filha caçula, Maria José Leal Alves, também dá seu depoimento:

“Era felicidade do meu pai reunir a vizinhança e fazer festa no quintal de casa, o tambor tocava noite à dentro. Hoje, a coisa mudou a maioria de seus amigos também já se foram (sic) e restou pouco para contar”.

Dos três filhos, Marco Antônio, 36 anos, foi o único que continuou com a tradição. Ele canta e toca as canções aprendidas pela vida quando acompanhava o pai nos eventos de confraternização. Seu filho com apenas cinco anos, José Adilton, neto de Zé Embate, participa e já tem força nos braços para cantar e tocar.
Dos tempos passados ainda restou um tambor, conhecido como “Corre Mundo”
15. Muito resistente, o instrumento é feito de tronco de árvore e pele de carneiro. Quando a festa é à noite só uma fogueira faz com que o som saia perfeito e durante o dia não há problema, o sol faz o mesmo papel.
15 O tambor é “batido” por um ogã (responsável pelo ritmo e pelos cânticos). Ele se assenta sobre o tambor ou o pressiona entre as duas pernas, executando a batida com o corpo meio emborcado.

5 - As Danças

5.1 - O Jongo

Incontestavelmente, esta foi/é a dança mais conhecida e praticada por toda Baixada Campista, como herança forte dos escravos. O Jongo era a diversão dos fins de semana, nos rituais das festas lúdicas e considerado a paixão de qualquer família de afro-descendente da região. Em quase todas as usinas, ou no que restou delas e, hoje, na periferia da cidade de Campos, encontram-se, ainda, mas não com facilidade, resquícios de jongueiros, na sua maioria pessoas negras que trabalharam durante muitos anos em alguma atividade relacionada à cana-de-açúcar e ao trato com o gado de corte e leite.
Procurando por dados sobre o “Jongo”, na Biblioteca Municipal de Campos, foram encontradas apenas algumas publicações de jornais, já gastas pelo tempo e empoeirada pela memória quase esquecida da dança. Seguem alguns dados encontrados, sem outras referências:

“Antônio Pinto Miranda diz que Jongo na Angola se chama Djongô e é dança e ritual de tribos angolanas dedicadas exclusivamente ao pastoreio. “O jongo é um ritual macumbal, sub-tribo dos bantos, ocupando a zona semidesértica de toda cordilheira Chela. A maneira de dançar eles usam nas festas e nos lazeres. A este ritual damos o nome de Djongô, que seria nosso Jongo, com suas variações e adaptações”.

Ele acrescenta, ainda, que o Jongo em Angola é sempre dançado cultuando o boi, que para algumas tribos é quase sagrado. O boi deixou de ser um animal para o comércio e passou a ser a imagem principal dos seus cantos, contos, lendas e músicas. Talvez conservando essa tradição angolana, também se encontra em Campos vários pontos que se fala sobre o boi
16:

“Encontrei meu Santo Antônio
Na cancela do currá
Levanta meu Santo Antônio,
Deixa meu gado passá”.

De acordo com o escritor Osório Peixoto Silva, para os campistas Jongo é dança praticada em terreiro de chão batido, com um ou dois tambores - cavados em pau ôco - e acompanhado por palmas. Forma-se o círculo dos dançadores, um deles entra no círculo, conta sua história em monólogo ou palavras estranhas, sempre procurando o ponto que soltará e que caberá no ritmo.
Há, ainda, o Jongo, com ligações religiosas, geralmente com a umbanda, mas igualmente com os pontos repetidos pelos dançadores, a partir do cântico do ogã. E quando o ponto é bom pode ser cantado por muito tempo nos terreiros. Como este que se segue:

“Toda vez que caio
Caio diferente,
Ameaço pra trás
Mas caio pra frente”.

16 A melhor pesquisa sobre a relação do boi com as diferentes civilizações, incluindo sua magia enquanto ludicidade na planície goytacaz, está na dissertação do professor Orávio de Campos Soares (“Muata Calombo – Consciência e Destruição”), UFRJ, Rio de Janeiro, 2002. Ele faz uma ligação entre o Boi Bento português e o muata das tribos africanas para explicar sua presença e importância cultural no Brasil.

5.2 - Remanescentes da dança

5.2.1 - Periferia

As danças foram feitas ao som do tambor de Jongo e aqueles que não puderam ficar nas verdes planícies no trabalho da lavoura, foram tentar a vida na cidade. Na mala, a esperança de um emprego, a responsabilidade de cuidar da família e o que restou da cultura, da língua e das danças.
De acordo com Dário Soares Ferreira, antigo integralista e pessoa muito ligada às Festas do Laço, citado por Osório Peixoto, “(...) a favela substitui a senzala e é nela que a gente encontra os grupos de jongo”.
Milton Nascimento, 58 anos, é ex-jongueiro, nascido em São Caetano Velho, território onde ficava a Usina do Queimado, cortou cana por muito tempo, mas depois saiu da usina e foi morar na periferia, no bairro de Custodópolis, conseguindo se aposentar como trocador de ônibus na extinta empresa CTC e foi assim, finalmente, que se livrou da cansativa lida na roça.
Hoje, casado pela segunda vez, têm 16 filhos e 21 netos. Evangélico há doze anos afirma que o Jongo não tem nada a ver com a religião, mas que na sua concepção atual de vida considera um tanto profano as práticas jongueiras:

“O jongo representou para mim uma fase de intensa alegria e descontração. Eu conheci muitos amigos. Eu era o mais novo de todos e ainda assim eles me respeitavam muito. Na minha condição de evangélico acredito que a dança é o prazer da carne e por isso pretendo ficar longe. Mas sinto muitas saudades dos tempos que não voltam mais. Aquele batuque do tambor vem na minha mente. Saudades dos velhos jongueiros. Valeu a pena”.

Diante de tal declaração Milton ficou com os olhos cheios d’água, com certeza na cabeça dela um filme passou lembrando de todo aquele tempo em que a dança era pura e de raiz. Ele acrescentou que os encontros dos jongueiros aconteciam na Avenida Cabo Baiano, quem promovia as jongadas era o próprio Cabo Baiano, que, segundo Milton, era “um caboclo arretado que fazia festas todos os fins de semana”.

“Há quem diga que foi ele que trouxe a dança para o bairro. Todos se juntavam no quintal da sua casa e ficavam virando a noite só na dança. Era uma alegria só. Faz trinta anos que o Cabo Baiano morreu e, com ele, todas as festas”.

No bairro próximo, chamado Parque Santa Rosa, vive Maria Creusa Batista Alves, 42 anos, filha de uma das grandes divulgadoras do Jongo, em Campos, a famosa Maria Anita. Ela busca nas lembranças a história da mãe e do Jongo na vida de toda família, que aproveitou a dança como forma de trabalho durante muito tempo.

“Minha mãe tinha um bar e lá as pessoas se reuniam para dançar Jongo. Ela era uma mulher muito lutadora trabalhava e sempre com muita firmeza em tudo que fazia. Ela foi a primeira mulher a usar calça comprida na cidade. A história toda começou com seus pais que dançavam Fado, mas era do Jongo que ela gostava mais”.

Maria Anita morreu no ano de 1986, mas deixou para toda família a arte do Jongo. Os descendentes se reuniram e com doze componentes montaram um grupo que, contratado pelo Departamento de Cultura da Prefeitura de Campos, se apresentava em escolas, teatros e até em praças publicas.

“Naquela época o grupo era muito importante e ganhamos até um prêmio na Semana do Folclore do Sesc de Campos e, depois, no Rio de Janeiro, no Sesc da Tijuca. Se tivéssemos condições retomaria tudo novamente, mas as pessoas precisam trabalhar e não há ninguém que pague por essa cultura”.

Uma publicação de Osório Peixoto, provavelmente do início da década de 80, encontrada na Biblioteca Municipal Nilo Peçanha, retrata alguma coisa sobre Maria Anita e mostra a importância da divulgação da cultura do jongo na época.

“Famoso também é o grupo de Maria Anita, que está até participando do Pacote Cultural, apresentando-se com êxito em vários eventos - horrível o nome do evento - do Pacote, de nome também horrível”.

O que não falta para Creusa, a Mariinha, são lembranças das letras de Jongo. Segue algumas letras mais usadas nas apresentações:

“13 de Maio
Quando a princesa chegou
Levanta nego
Vem saravá meu tambor
Saravá Tambor
Tava dormindo
Quando a princesa chegou”.

De todas as letras, em especial, na seguinte ela lembra muito mais da mãe:

“A formiga Taco-Taco
Me mordeu aqui
Me mordeu aqui...
Que formiga danada
morde canto por canto”.

O sorriso de Creusa fica brilhante ao lembrar o que a música trouxe de bom para sua vida no tempo em que Maria Anita era dedicação em tempo integral à família, que ficava sempre bem unida. “A união da família sempre foi muito importante para mim. Não pode deixar a dança morrer, está morrendo, está morrendo, mas não podemos deixar. Praticar o Jongo é como manter viva a minha mãe”
17.

17 O grupo de Mariinha já não existe mais, o que prova que a cultura de raiz ao se estabelecer no nicho da cultura de massa acaba morrendo com seus principais cultores. Depois do Pacote Cultural da prefeitura, o grupo se desfez e hoje até os tambores estão desaparecidos.

5.2.2 - Aceiros de Cana

“A história registra a evolução da humanidade, seus progressos, suas conquistas técnica e social”. Waldir P. Carvalho.

Na história dos antigos trabalhadores nos canaviais de canas é onde encontramos as marcas do Jongo, uma vez que era a dança que fazia a diversão de todos. Era com o Jongo que o cansaço do trabalho era esquecido e a família se reunia em torno da roda.
Na Vila 2, localidade que cresceu em torno da extinta Usina de Outeiro, entre Campos e Cardoso Moreira, mora Eliseu Francisco, 77 anos. Nos pés as marcas dos tempos duros das lavouras de cana, mas na memória as lembranças que ainda dão sentido à vida.

“Quando eu morava e trabalhava na Usina Santa Cruz, dançávamos muito mais. Lá, sim, o tambor era quente. Mas por aqui há muita gente que gosta de dançar até hoje e algumas vezes vamos para Cardoso tocar e dançar lá”.

No bate-papo descontraído, Eliseu contou do trabalho e de como tudo era difícil naquela época. Tentou lembrar algumas letras, mas o ritmo não conseguia acompanhar a letra, como se existisse um abismo entre os dois. Entre a realidade do passado e a memória esmaecida no presente.
Na mesma Vila mora Claudino Pereira de Souza, 76 anos, nascido em Juiz de Fora. Ele foi morar com os pais desde cedo nas terras da usina de Outeiro e de lá não mais saiu. O Jongo para ele era atração dos fins de semana, mas determinado lembra que não existe mais a cultura e a obrigação da dança.

“Há muito tempo não escuto o barulho do tambor, se eu escutasse eu lembraria das letras. Lembraria do jeito de dançar e com certeza sentiria toda aquela emoção de novo. Hoje os jovens tomam cerveja e querem bagunça. Naquela época a dança valia a pena e era bonito de se ver”.

5.3 - Folia de Reis

A Folia de Reis ainda está presente na memória da Baixada Campista. Ela deu entrada da dança no Brasil em 1534 e é desenvolvida, até hoje, entre os dias 25 de dezembro e seis de janeiro. É uma representação dos Reis Magos ao Menino Jesus. A Folia é liderada pelo mestre e contra-mestre. Os dois palhaços representam os soldados, chefes da guarda de Herodes. Depois que os três Reis Magos estiveram com Herodes, indagando-o onde estava o Menino Jesus. Porém, ao encontrarem o recém-nascido, os guardas se comoveram e passaram a cuidar do Menino, segundo retrata a Bandeira de Santos Reis.
Os grupos visitam as casas, cantam e dançam. O ritmo é dado pela viola, cavaquinho, sanfona, pandeiro, bumbo e caixa, acompanhados do improviso nas letras das canções, que são sempre em homenagem aos donos da casa.
O escritor Álano Barcelos, em seu livro “A Linguagem da Baixada Goitacá”
18, conta que uma vez em férias com a família, no ano de 1991, na praia de Farol de São Tomé, recebeu a visita de foliões. Impressionado com os dizeres do grupo anotou duas quadras, uma delas falava sobre um velho problema da comunidade campista com a empresa estatal Petrobrás, na época o gás canalizado para as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, nada deixava para os campistas e suas indústrias. Os versos diziam:

“Seu Presidente Fernando,
Diga aqui pra esse rapaz:
Vão continuá abusando?
Pra onde vai o nosso gás?”

“Sinhora dona de casa,
Abra a porta, acenda a luz
Viemo cantá reis
Pelas chaga de Jesus”

Terminada a apresentação, os foliões eram convidados para entrar na casa e se servirem de comidas e bebidas. As danças aconteciam na maioria das vezes durante a noite, o que motiva os versos que falam da noite.
No dia 22 de agosto de 2003, um grupo de historiadores da Fundação Cultural Oswaldo Lima tentou resgatar a cultura da Folia de Reis na cidade de Campos, num evento realizado na Casa de Cultura Vila Maria. Seis grupos vindos do Estado do Espírito Santo apresentaram suas danças mostrando ao público a história da Folia.
De acordo com a historiadora Sylvia Paes, o objetivo da reunião foi resgatar os grupos de Folia de Reis da cidade. “Fizemos um levantamento e constatamos que existiam grupos nos bairros da Penha, Capão, Calabouço e Cidade Luz. Hoje, a tradição acabou e na cidade não há nenhum grupo formado”.
No evento, dois antigos mestres de folias da cidade estiveram presentes: “Seu” José Alves, 67 anos e Manuel Lemos, 79. Com saudades dos velhos tempos eles se animaram a tentar formar um grupo. Mas, de acordo com ambos, as dificuldades são grandes.
José é morador do bairro da Penha, em Campos. Sempre se dedicou à cultura da dança e por vezes apresentava com seu grupo em cidades próximas. A dança dentro da sua família era tradição, seu pai fazia questão de ensinar para todos os filhos.

“Eu sinto muita falta de como era bom aquele tempo. Meus companheiros já morreram e os que ficaram não dá (sic) para montar uma folia completa. Mas ainda tenho fé em meu Deus que, um dia, vou voltar a ter minha folia”.

Outro remanescente da dança, Manuel Lemos, diz que há mais de 10 anos não sabe o que é fazer folia. Ele atribui o esquecimento da dança à criminalidade que aumentou nos últimos tempos e, aí, as pessoas não abrem a porta de suas casas com tanta facilidade. Aquela proximidade do interior acabou.

“Não temos mais quantidade de pessoas. São necessários 12 homens, pois representam os apóstolos, mas até com seis dá para fazer. As dificuldades para montar o grupo são muitas. Algumas pessoas não querem participar porque temem assaltos e ninguém abre a casa para nos receber como antes”.

Depois das pesquisas na periferia e na Baixada Campista não foi constatada nenhuma presença da Folia de Reis no município. Foram encontradas apenas pessoas que participaram, lembrando algumas cantigas, antigos mestres e músicos. Nenhum grupo formado foi encontrado em todo trabalho
19.
18 O professor Alano, que foi Senador da República, hoje aposentado, editou pela Lucerna, Rio de Janeiro, 1992. Foi ele também, professor e vice-diretor da Fafic.
19 A última Folia de Reis de Campos foi a de “seu” Manoel do Calabouço. Seu filho, mestre André, da bateria do Bloco de Samba Unidos do Calabouço (também extinta), não seguiu os seus passos e a folia acabou morrendo com o seu criador.

5.4 - Os que dançaram na história...

“Se for para procurar um cabra que gosta de festa e dançar todo tipo de música na baixada, procure por Antonio de Zinho, aquele que mora logo ali no Caboio...”

A informação é de uma pessoa desconhecida encontrada no caminho entre as localidades de Mineiros e Ponto da Areia, na Baixada Campista, durante as pesquisas de campo. Com efeito, lá encontramos o homem, que foi logo se adiantando: “Pergunte a dança e eu te digo como é”. Aos 68 anos, Antônio Franco Machado, conhecido pelo apelido de Antonio de Zinho, esbanja ânimo e força de vontade para continuar a vida rindo e lembrando dos velhos tempos.

“Naquela época não tinha muito o que fazer, porque ninguém tinha recurso para ter coisas materiais como TV e rádio. Era apenas trabalho e casa. Então, o tambor “Corre Mundo” ia de quintal em quintal, juntando os vizinhos e fazendo aquela bagunça na batida de palmas e no sapateado”.

Antonio de Zinho se considera o maior “dançador” da Baixada, sabe dançar Mazurca, Rancheiro, Lanceiro, Mana Chica, Folia de Reis e conhece toda tradição da Cavalhada
20. Os passos das danças ele ainda sabe de cor e lamenta não ter conseguido passar tudo para a próxima geração.
Na sua casa simples no Caboio, onde vive com a esposa, não há mais dança no fundo do quintal. Os amigos de antes já não aparecem mais. Uns já se foram e os que ficaram a doença não permite a alegria das festas. “Tudo era motivo para festa, claro que era dança regada com uma cachaça bem curtida”, lembrou com saudade.
Nos registros de Alberto Lamego, no livro “A Planície do Solar e da Senzala”, (Arquivo Público do Rio de Janeiro, 2ª Edição, 1996, p.79), ele relata que de todas as danças regionais a Mana-Chica foi uma das mais importantes. E conta como surgiu.

“Criada no seio da planície, entre lagoas e canaviais, remonta a sua origem a fins do século XVIII. Pelo menos é o que nos conta a tradição. Nasceu no Caboio, um desses pequenos agrupamentos marginais à estrada do Cabo de São Tomé, grudado ao solo raso, entre a Lagoa Feia e Mussurepe. Por aquela época, havia entre os moradores uma mulher apelidada de Mana-Chica. Foi a sua inventora. Da sua vida apenas deduzimos que era amiga da folia”.

Nas localidades e distritos o trabalho da procura por alguém que informe sobre a cultura popular é como garimpar. No distrito de São Sebastião, a simpática figura de Adrualdo Gama, 84 anos. Na voz cansada e no andar calmo de seus anos de estrada consegue lembrar dos tempos em que as danças eram motivos para grandes reuniões entre a família e amigos. “Dançava muito a Quadrilha, Lanceiro, Jongo e a Valsa. Quando conheci minha esposa a família dela não deixava sairmos para dançar e sempre era aquele problema”.
Com 62 anos de união com Alair Lima Gama, 82 anos, Adrualdo leva uma vida tranqüila. Quando era moço foi dono de cerâmica, criou dois filhos, que agora tomam conta do negócio.
Andando mais alguns quilômetros chegamos a Cazumbá, uma localidade pequena com poucas casas, uma igrejinha simples e gente conversando na janela. A população composta, na maioria, de mais idade, porque gente jovem só se for bem criança. Procurando pelas tradições da dança no lugar foi que se conheceu Antônio Mendonça Filho, um senhor de 65 anos. Quando se falou nas danças ele conseguiu recuperar na memória alguns passos e letras. Eis alguns fragmentos:

“Vamo vê dona Maria
quem te deu esse marido
veio do Rio de Janeiro
no oratório de vidro”.

“Vamo ver senhor Manel
quem te deu essa mulher.
Veio do Rio de Janeiro
enrolado no papel”.

No livro “Cantigas de Reis e outros Cantares”, a escritora Anna Augusta Rodrigues, (Editora Inelivro, 1979, p 11), explica o significado do termo reis e suas derivações.

“A palavra reis tem sentido extremamente flexível e larguíssimo emprego na região norte fluminense. É na verdade sinônimo de folia como folguedo, brincadeira alegre e em movimento, em trânsito pelas ruas ou caminhos. Ao mesmo tempo, refere-se a e confunde-se com reisados e com celebrações de Natal, do Ano Novo e do dia de Reis- ternos, ranchos, loas, autos pastoris e o que mais haja”.

Os rituais das danças aconteciam à noite e os tocadores iam de casa em casa e, dependendo do lugar, até ganhavam um dinheiro ou, quando muito, “um café para esquentar do frio” (sic). Seu Mendonça trabalhou durante 26 anos num guincho da usina Barcelos, mas durante os fins de semana aproveitava os bailes para fazer amizades e se divertir um pouco. Mas depois que casou teve que diminuir as saídas. Como ele mesmo diz: “O boi solto se lambe todo”.
Seu casamento durou mais de 40 anos e isso foi o bastante para gerar seis filhos. Hoje viúvo e com os filhos casados ele vive sozinho. “Tenho muita vontade de voltar a dançar aquelas velhas danças, ninguém por aqui sabe nada e os mais moços então só querem saber de forró”.
As principais danças lembradas por Mendonça foram o Lanceiro, a Mazurca, Quadrilha e o Reis. Na hora da entrevista ele improvisou uns passos de Mazurca e convidou todo mundo para dançar. Como sente muita necessidade de continuar nos bailes, vez ou outra freqüenta clubes de Campos e dança as músicas da moda.
- Tenho saudades de dançar o Lanceiro - disse essa frase com um sorriso e acompanhou o ritmo com um brilho no olhar. Ele acrescentou ainda que o Lanceiro pode ser dançado com quatro pares, o ritmo e o modo de marcar se assemelha com o usado na Quadrilha. Já se passaram 30 anos desde a última vez que “caiu” no terreiro para dançar o Lanceiro.
Como naquela época os registros eram escassos e as pessoas recebiam informações através da oralidade, o que se encontra ainda é muito vago. Na internet encontramos algum registro no site
www.uol.com.br/saojoao2003 sobre a Mazurca. Segue as informações:

“De origem polaca, a Mazurca é uma dança muito popular no Sul do Brasil. No século 19, era também chamada de Valsa de Dois Passos, em virtude da dança começar com dois passos laterais para a esquerda, seguidos de outros dois para a direita. A Mazurca é dançada em pares colocados em roda. Os casais começam por dar dois passos laterais no sentido do interior da roda, regressando logo à posição inicial. De seguida, dão dois passos laterais para o exterior da roda, voltando com outros dois ao ponto inicial. Depois, os pares valseiam, isto é, dançam girando sobre si próprios, do mesmo passo que a roda grande gira no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, até atingir o fim do trecho musical, altura em que tudo, música e coreografia, volta ao princípio”.

20 Segundo Antonio de Zinho as primeiras cavalhadas na Baixada ocorreram no Solar do Colégio. Para ele, o solar é o berço dessa manifestação tão importante, ainda existente em Santo Amaro, São Sebastião e São Martinho.

6 - As Rezadeiras

A força das rezadeiras ainda tem forte presença no interior e muitas ainda conseguem sobreviver perdidas na periferia da cidade. O poder de invocar Deus pedindo forças ecoa por todo ambiente, refletindo na pessoa que carece da prece e das graças. São rezas simples, no fundo do quintal, mas que, para muitos, são os caminhos da cura.
A publicação do “Abecedário da Religiosidade Popular”, de Frei Chico e Lélia Coelho Frota, relaciona com clareza a religião dentro das camadas mais humildes e mostra a fragilidade da vida material da maior parte da população.

“A globalização parece ameaçar a identidade cultural dos povos. No Brasil de hoje, 70% da população vive (sic) nas cidades. Ao contrário dos últimos 25 anos, quando estes menos de 70% estavam no campo. Esta imensa urbanização exige de nós um maior registro da religiosidade popular nas cidades. O cotidiano da cidade moderna e a vida do interior experimentam um forte esbarro. Os migrantes e os habitantes do campo são o lado mais frágil diante da violenta pressão das mídias e do individualismo praticado na metrópole”.

Nos relatos das rezadeiras que, ainda, se perpetuam no tempo, apesar dos avanços nas novas tecnologias, a fé na religião engloba pessoas de todas as classes sociais: “Vem gente de tudo quanto é lugar e, algumas vezes, vem tanta gente que nem tem lugar para todo mundo. Eu rezo quebranto, membros torcidos, espinhela caída e tudo quanto é enfermidade”, afirma a conhecidíssima dona Maria Preta, famosa na localidade de Mineiros. Sem medir esforços trata todos com a mesma atenção e tenta transmitir a mesma força no sentido de curar todas as doenças. É dela o seguinte fragmento:

“Lacraia não come,
lacraia não bebe
corta o rabo,
corta a cabeça,
nas três pessoas da
Santíssima Trindade.”

Na localidade de Saturnino Braga foi encontrada outra rezadeira: Dona Irene Gama, 71 anos, mas os anos não escondem a disposição de dar inveja a muito jovem. Na casa simples, sinais de quem vive na/pela religiosidade. Na sala apertada, três quadros dividem a pequena parede: Santa Ceia, Nossa Senhora Aparecida e outro com a imagem do Sagrado Coração de Jesus e de Maria.
A reza aprendeu com seu avô, Antônio Simão, famoso rezador daquelas paragens até o final do século passado. Diariamente, dezenas de pessoas freqüentam sua casa à procura de alivio para as doenças do corpo e da alma. A maneira de rezar de dona Irene é através de uma tesoura. “O aço da tesoura faz com que o mau/mal olhado não volte para mim. Eu curo qualquer doença, mau/mal olhado, alergia e tudo que faz mal para o coração”.
Na hora da reza apenas algumas palavras são nítidas. Na maioria das vezes é um confuso balbucio. Segue uma oração a Santa Bárbara:

“Santa Bárbara se vestiu, Santa Bárbara descansou. Nosso senhor perguntou: onde vai Bárbara? Vou para o monte, Senhor. Levaste a maldade, o mal de inveja, mal de feitiçaria para os montes sagrados. Para ver o galo cantar. Salve Rainha cravo divino, rosa de amor Nosso Senhor. Se tiver dormindo acordai, acordada ela está vendo esta cruz. Eu rezo essa oração para que no final aprende quem souber, não ensinai. No dia do juízo um grande castigo terá. Obrigado meu pai por mais um dia”.

Enquanto ela rezava mais uma pessoa com “mau/mal olhado”, com muita fé e devoção, foi possível anotar mais uma oração:

“Filho, sua cama tem quatro cantos, cada canto um santo, cada canto da sua cama tem o Espírito Santo. Sua cama tem quatro cantos, cada canto tem um santo, no meio da cama tem um letreiro com Divino Espírito Santo. Sua cama tem quatro cantos, quatro anjos te acompanham: meu São Roque, São Matheus, Virgem Maria e meu Senhor Jesus”.

Impossível não se encantar com a situação. Numa casa simples uma senhora de 71 anos dedica seus dias para ajudar os mais necessitados através de suas orações. Tida para todos como uma líder da comunidade, dá conselhos para qualquer tipo de problema. Até hoje sempre que acontece alguma coisa no lugarejo, as pessoas tratam logo de comunicar à dona Irene, para saber dela o que fazer. Há décadas quando os trabalhadores da antiga usina de Baixa Grande ficaram sem receber, ela fez um repente para cantar para os donos. A letra diz assim:

“A usina de Baixa Grande só tem tamanho e beleza faz pagamento aos rico e sacrifica a pobreza. Doutorzinho não demora vai mudar para o céu. Doutorzinho vai fazer companhia a Noel. Doutorzinho este ano fez um papel engraçado, guardou o dinheiro que tinha para não pagar os empregados.
Como o salário aumentou ele se arrependeu adizou (sic)
21 o empregado e o dinheiro apareceu. Doutorzinho que quero ver a coisa como é que, quanta infelicidade essa fábrica de papel. Doutorzinho escute bem vê a coisa como é que os pobres passam com café (sic)”.

Os versos feitos por dona Irene falam de política e tentam orientar os moradores da localidade para a realidade social e é dessa forma que os líderes espirituais acabam se tornando também lideranças políticas
22. Nos versos abaixo descreve a política nacional, da região, homicídios e casos de acidentes na estrada próxima a Saturnino Braga. Uma espécie de reportagem sobre os acontecimentos de seu tempo

“Na estrada do Axéu se deu um causo maneiro. Um caminhão de Coca-Cola em uma Rural bateu. Eu vou falar com Zé Barbosa para ele ter compaixão para fazer uma estrada reta de Donana a Santo Antônio”.

“No dia três de outubro teve uma revolução mataram o chefe político por causa da eleição. Chora toda família, não há dinheiro que pague. Leôncio perdeu a vida por causa de Getúlio Vargas”.

“Na estrada do Espinho se deu um causo maneiro. Na rompida do caminho apertaram Batista no dedo. Ai meu Deus que coisa triste, meu Deus que coisa feia. Até hoje não descobriu a máscara vermelha”.

“Getúlio Dornelles Vargas foi grande herói varonil, para pobreza foi pai, enfrentou guerra a fuzil, morreu e deixou seu nome no coração do Brasil. A classe proletária deu apoio e proteção, libertou o empregado da cadeia e do patrão. Por isso todos operários traz (sic) ele em seu coração”.

O país inteiro sentiu se cala e não diz, mas no coração dos pobres seu nome deixou raiz. Pelas faltas que Getúlio tem feito em nosso país. Para o burguês foi amigo e a pobreza foi pai. O país inteiro sente desta lembrança não saí. Enquanto existir Brasil o nome dele não caí”.

A casa, apenas com três cômodos, mostra sinais de pobreza por todos os lados. Na hora do almoço a única coisa que Irene comeu foi um mingau, que não deixou de oferecer como refeição. Quando chegou a hora da despedida, um adeus que valeu pela viagem inteira: “Vai com Deus meus filhos...”
As rezadeiras continuam trabalhando por todos os lados, nos bairros mais escondidos e pelas ruas mais remotas. Quem pensa que essa tradição se foi com o tempo engana-se, porque vai durar, ainda, durante muitos anos. Na localidade de Xexé, pertencente ao distrito de Farol, Tereza Silva Santos, de 67 anos, atende todos os dias mais de 20 pessoas nos fundos de sua casa, onde construiu um pequeno centro espírita de umbanda para abrigar seus inúmeros santos e atender aqueles que procuram pela paz espiritual.
No altar uma mistura de devoção ao catolicismo e a prática da umbanda23
23. A continuidade do sincretismo religioso dos tempos da escravidão. As imagens de São Jerônimo, Santa Bárbara, São Pedro, São Cosme e Damião, São João Batista, Santo Antônio, São Sebastião, São Lázaro e São Jorge, ficam juntos aos caboclos e a adorada Iemanjá. Todos dividem um pequeno altar e recebem adorações em suas datas especiais.
Junto com sua irmã, Olga Benedita Silva, 66 anos, Terezinha, como gosta de ser chamada, atende aos enfermos sem ter dia e nem horário marcado.

“Fazem fila aqui em casa para conversar comigo. Se Deus me deu de graça tenho que ajudar aqueles que precisam. Comecei a me dedicar a isso quando minha filha tinha seis anos, ela sumia de dentro de casa, ficava perturbada. Levei em tudo quanto foi médico e nada deu jeito, até que uma entidade conversou comigo e me pediu ajuda, em troca curou minha filha. Hoje, ela é feliz e tem uma vida normal como todo mundo”.

Contabilizar todos os casos que Terezinha resolveu fica difícil, entre eles, ela lembra do caso de um menino, de seis anos, que estava com anemia profunda e, totalmente desenganado pelos médicos, quando procurou a rezadeira. Depois de muita oração e de beber algumas ervas o menino ficou bom, precisando apenas de uma transfusão de sangue para melhorar por completo.
De acordo com Terezinha, a correria do dia-a-dia é gratificante quando consegue resolver o problema das pessoas que chegam até sua casa. “Faço tudo em nome da caridade, se eu puder ajudar é só vir até minha casa simples que será com muita satisfação que atenderei”, finaliza a rezadeira com um “fiquem com Deus”.

21 – Ela quer dizer: Indenizou no linguajar simples dos muxuangos da Baixada.
22 – A personagem Beata Maria Santa do Araçá prova esta definição. Ela pode ser lida em Orávio (op. cit., p. 85).
23 As atividades afro-descendentes estão se esmaecendo em virtude do advento das chamadas igrejas eletrônicas. Como não tem espaço na mídia, o umbandismo hoje, segundo o presidente da Federação Espírita de Umbanda de Campos, Geraldo Alves Filho, é representado por cerca de 400 centros e cerca de 4 mil aficionados.

7 - O Linguajar da Baixada


“Já pelejei muito, de pé no chão. De iguá, até trotei, depicuá pelo pescoço adentro, por muitas légua, feito burro, com peitorá vestido puxando instrumento de aradinho nas limpeza da lavora!”.

O texto é do escritor (e médico) José dos Santos Silva, inserido no livro (“Carreiras Di-Já-hojinho”, Damadá, Itaperuna, 1989), no qual ele relata vários “causos” da Baixada Campista, descrevendo com precisão o linguajar da população do interior. José dos Santos nasceu sub-distrito de Goytacazes, filho de uma família de dez irmãos e cresceu dentro dos costumes e passou pelas mesmas necessidades de qualquer família obrigada a sobreviver do trabalho nas lavouras da cana.
O linguajar arrastado daqueles tempos não é mais o mesmo, porque algumas expressões sumiram do cotidiano dos moradores, na medida em que a mídia comunicacional começou a invadir as casas por meio da TV, rádio, revistas e diversos outros meios, fazendo as pessoas se adequarem ao vocabulário falado nos centros urbanos. Restando apenas alguns indícios do sotaque e perdidas palavras.
O livro “Antropologia Cultural – a ciência dos costumes” (Felix M. Keesing, p.20), fala sobre a relação do processo de distribuição da linguagem e sua dinâmica.

“Um grupo de pessoas que usa os mesmo sinais verbais é referido como uma comunidade de mesma língua. Falando em sentido lato, o conceito é bastante claro; refere-se a pessoas que são capazes de compreender umas a outras. Como tal, são distinguidas em oposição a pessoas que vivem em outros mundos de intercâmbio mental, como estando em outras comunidades de mesma língua.
Entretanto, na realidade, a demarcação de uma comunidade de mesma língua de modo algum é sempre fácil. As línguas muitas vezes se misturam, gradativamente, umas com as outras, através do intercâmbio mútuo de palavras e sentidos, principalmente quando estão geograficamente adjuntas, de modo que os limites não são definidos. Podem partilhar de uma só ascendência e, embora há muito separados, ainda ter muitos elementos evidentemente idênticos. (...) Além do mais, dentro de uma determinada comunidade de mesma língua, tendem a existir muitas subdivisões. Uma língua vastamente difundida tenderá a ser regionalmente diferenciada no que chamamos dialetos, formas verbais que possuem contrastes marcantes, embora não suficientes para caracteriza-las como línguas separadas”.

O homem que viveu a vida toda no campo, mesmo tendo freqüentado a escola tem um estilo próprio de falar, ainda que a televisão tenha invadido sem barreiras há maioria dos lares, algumas palavras ditas pelos ancestrais conseguiram sobreviver às novas tecnologias. O escritor Felix faz essa diferenciação.

“Adicionalmente, podem existir distinções entre a linguagem falada e a linguagem literária, se existe tal coisa (em geral escrevemos está, mas dizemos ´tá), entre a linguagem sofisticada dos centros principais, especialmente sendo urbanos, e as áreas provincianas e rurais, e entre a linguagem das classes superiores e inferiores, ou das cultas e das incultas. Depois, pode haver, igualmente, especializações convencionais, fundadas na ocupação (terminologia legal e médica em nossa própria língua), na religião (linguagem eclesiástica, contendo tipicamente muita coisa arcaica), ou na posição (terminologia “honorífica”, pertinente a classes e líderes), no sexo (alguns povos exigem que homens e mulheres empreguem espécies diferentes de discurso) e em várias outras dimensões”.

Com o título “Crônicas & Causos”, Gil Wagner Quintanilha, p.113, descreve histórias sobre a Baixada, focalizando a língua e os costumes da população. De acordo com ele o lugar viveu anos criando o seu linguajar regional, algumas vezes enriquecendo o vocabulário com palavras não dicionalizadas.

“São maneiras próprias do nosso falar, uma espécie de cacoete ou sestro a que nos agarramos como exclusividade em nossa conversação. Conheço, por exemplo, o caso de certo campista de Santo Amaro: andava ele numa calçada de Porto Alegre, quando ouviu dois senhores que iam pouco adiante, tendo um, respondido ao outro assim: - Rapaz, aquilo é um “lamparão” de teimoso. Aquele “tisgo” é muito “ico”. O santamarense não agüentou e bateu no ombro do autor daquela saborosa frase: - Se mal lhe pergunto, o senhor é de Campos”.

A moradora da localidade de Mineiros, Alaíde Vital, de 93 anos, ainda muito lúcida, consegue falar de forma clara e precisa e em seus diálogos fica difícil anotar qualquer erro gramatical. Neste caso, o sotaque fica fácil de fazer a diferenciação, mas não há erros de português: “Confesso que nunca freqüentei a escola, mas sempre tive cuidado com as palavras e o que é melhor sempre observei os mais velhos tinham para passar”.
Algumas palavras com origem na Baixada correm também pelo centro de Campos, um exemplo é a palavra cabrunco, pronunciada quando quer dizer que alguém é ruim. Lamego (op. cit. p.98), conta a origem da palavra:

“A palavra é proveniente de uma doença que atinge o gado bovino. O carbúnculo, essa doença contagiosa é transmitida ao homem através do contato com o couro de algum animal infectado pela doença. Mas como o homem do campo, ignorante no linguajar não compreende o nome da doença ele provavelmente ao transmitir a informação para outro cidadão acabava pronunciando a palavra de forma incorreta, e o carbúnculo, vira cabrúnculo, passando posteriormente a pronúncia que hoje conhecemos, o cabrunco”.

Na realidade, a questão da linguagem muxuanga, ainda existente na memória dos mais velhos, embora possa ser mais discutida pelo ponto de vista etimológico, está sendo destruída pelo espírito do tempo, segundo definição que passa pela leitura de Heidegger e W. Benjamim. Isso quer dizer que os meios de comunicação e os avanços científicos e tecnológicos vão mudando a característica vivencial do interior, fazendo com que a grandeza de sua cultura seja substituída pela cultura de massa produzida pela televisão.
O próprio Pierre Lévy (“Tecnologia da Inteligência”, (Ed. 34, São Paulo, 1999) assinala que, inclusive, exageros à parte, que “não existe mais o interior, porque é possível estabelecer, de qualquer lugar do planeta, as formas de comunicação criadas pelas novas tecnologias”. Este trabalho, nesse sentido, objetiva fazer o registro histórico recuperando parte considerável dos costumes dessa região tão importante para o município. E o fizemos a partir da história oral, antes que seus cultores faleçam, levando o que restou da saga de seus antepassados para o esquecimento natural de todos os túmulos.
“Toda a estruturação da sociedade humana é devida à linguagem”, (Bloomfield, 1933, livro Antropologia, pg. 551)

Uma das maneiras de compreender a história de um povo, ou de diversos povos está no estudo de como sucedeu a transformação da linguagem. No caso específico do linguajar da Baixada Campista e de todo o município, foi necessário buscar no limiar dos tempos, e em livros de lingüística a compreensão e o entendimento de como isso ocorreu.
Vale lembrar que, na Baixada Campista, viviam os índios goitacazes que, ao perceberem a chegada do homem branco, intruso, fez de tudo para manter a posse da terra, mas diante da técnica do homem, o índio aos poucos recua, se entrega ao contato, e é subjugado pelo homem, que dizima toda uma nação.
Mas a terra vinga-se e destrói no homem o espírito aventureiro e o subjuga. Derrotado, o homem já não tem mais forças para lutar, mantém a sua riqueza cultural, mas aos poucos vai perdendo parte dela diante do ostracismo. E assim, passa então a se deixar levar diante dos novos tempos.
É através das novas gerações que a cultura vai declinando diante do novo. O contato com outros povos, de outras origens, de outras culturas miscigena a lingüística, perde-se os valores, agrega-se novos elementos. E a riqueza cultural de um povo, aos poucos some, a vida cotidiana absorve o novo e o velho, mas no convívio diuturno a cultura antiga cede espaço.
Os novos valores, conceitos e padrões morais são bem diferentes. A linguagem escrita e falada se distanciam, e assim as palavras e expressões que outrora eram a riqueza de um povo desaparecem por complemento.
Hoje, apesar de tanto tempo, ainda descobrimos pequenos fragmentos nítidos de uma cultura existente, de um modo de vida, de um padrão, de maneiras e formas de linguagem falada e através do livro “Antropologia Cultural – a ciência dos costumes”, volume 2, Editora Fundo de Cultura, escrito por Felix M. Keesing, passamos a compreender a história do linguajar da Baixada.
Toda essa evolução passa por quatro processos, o do choque de culturas, a assimilação de valores culturais, a conseqüente perda de elementos da cultura de ambos os povos para seguir com um novo elemento que agrega traços culturais dos diferentes grupos sociais.
Na referida obra, (p. 559), Keesing contextualiza em relação a todo esse processo da distribuição e da dinâmica da linguagem dizendo que:

“Um grupo de pessoas que usa os mesmo sinais verbais é referido como uma comunidade de mesma língua. Falando em sentido lato, o conceito é bastante claro; refere-se a pessoas que são capazes de compreender umas a outras. Como tal são distinguidas em oposição a pessoas que vivem em outros mundos de intercâmbio mental, como estando em outras comunidades de mesma língua.
Entretanto, na realidade, a demarcação de uma comunidade de mesma língua de modo algum é sempre fácil. As línguas muitas vezes se misturam, gradativamente, umas com as outras, através do intercâmbio mútuo de palavras e sentidos, principalmente quando estão geograficamente adjuntas, de modo que os limites não são definidos. Podem partilhar de uma só ascendência e, embora há muito separados, ainda ter muitos elementos evidentemente idênticos. (...) Além do mais, dentro de uma determinada comunidade de mesma língua, tendem a existir muitas subdivisões. Uma língua vastamente difundida tenderá a ser regionalmente diferenciada no que chamamos dialetos, formas verbais que possuem contrastes marcantes, embora não suficientes para caracteriza-las como línguas separadas”.

Diante disso procuramos compreender por quê o homem do campo possui uma maneira de falar tão diferente da do homem da cidade e encontramos no mesmo livro (p. 559) a seguinte observação:

“Adicionalmente, podem existir distinções entre a linguagem falada e a linguagem literária, se existe tal coisa (em geral escrevemos está, mas dizemos ´tá), entre a linguagem sofisticada dos centros principais, especialmente sendo urbanos, e as áreas provincianas e rurais, e entre a linguagem das classes superiores e inferiores, ou das cultas e das incultas. Depois, pode haver, igualmente, especializações convencionais, fundadas na ocupação (terminologia legal e médica em nossa própria língua), na religião (linguagem eclesiástica, contendo tipicamente muita coisa arcaica), ou na posição (terminologia “honorífica”, pertinente a classes e líderes), no sexo (alguns povos exigem que homens e mulheres empreguem espécies diferentes de discurso) e em várias outras dimensões”.

E (p. 560) continua...

“A linha de diferenciação entre um dialeto e uma língua não pode ser fixada. É uma questão de grau de inteligibilidade mútua. O mesmo é muitas vezes verdadeiro, como entre uma língua e algum grupamento maior de línguas correlatas, que ainda partilham elementos comuns. Mais compreensível, pelo menos por definição, é o conceito de uma família de línguas ou tronco de línguas. Trata-se de um grupo de línguas ligadas por conexões cientificamente demonstráveis (ou suscetíveis de hipótese), remontando a uma forma ancestral comum”.

Ele acrescenta também (p. 560) que,

“Nos casos em que a separação histórica e a oportunidade para especialização foram muito prolongadas, a língua original geralmente precisa ser reconstruída nos termos de umas poucas formas gramaticais criticamente importantes. Mas, em períodos mais curtos, mesmo correspondências fonéticas, verbais e outras podem persistir seletivamente numa forma reconhecível. Um novo artifício animador, para a comparação entre as línguas, recentemente proposto por Swadesh (1955) e colaboradores, é chamado léxico-estatística, ou, como um instrumento cronológico, glotocronologia. Segue uma velha idéia da lingüística, de que os sistemas de sons têm probabilidade de mudar seguindo certos modos regulares, por exemplo, a lei de GRIMM, que postula certas regularidades na mudança de sons nas línguas indo-européias”.

E conclui (p. 564/565):

“Entretanto, a par dessa tendência para a especialização local, deve-se reconhecer outra oposta para maior padronização e homogeneidade. Isto tem sido especialmente notado onde as comunidades têm uma vida agrícola e industrial estável, reunindo maiores agregados de pessoas, onde a linguagem se torna relacionada com o desenvolvimento nacional e onde a literatura e a imprensa exigem compreensões comuns de seu simbolismo. (...) Pode ir desde a aquisição de simples rudimentos de palavras e gramática e um emprego fonético imperfeito até uma compreensão tão perfeita que lembra a expressão “falando como um da terra”.

Mas o homem por sua sociabilidade procura meios de entrar em contato com outros povos e nesse intercâmbio ele passa a compreender e assimilar a cultura de outro povo. Esse fato é bem explicado por Keesing, nas (pgs. 565, 566):

“Os povos envolvidos nestes contatos de fronteira em geral não tinham de modo algum a oportunidade nem a inclinação para aprender a linguagem uns dos outros perfeitamente. Tudo o que se fazia necessário era conseguir um certo número de idéias padronizadas mutuamente compreendidas. As linguagens substitutas, portanto, se constituem sob a forma de um vocabulário de conveniência, tipicamente com uma estrutura gramatical limitada e com sistemas fonéticos reduzidos a algum denominador mais ou menos comum. Um fator indubitavelmente determinante da simplificação tem sido a tendência acentuada das pessoas para “falar fácil” com os etnicamente diferentes, exatamente como os adultos fazem com as crianças, em particular com pessoas de papel subordinado, como empregados e trabalhadores”

Ele afirma (p. 567) que,

“O fato de algumas línguas terem um vocabulário maior do que outras resulta simplesmente de possuírem uma coleção mais ampla de coisas e idéias para serem rotuladas – é questão de maior complexidade cultural, não de superioridade da língua. Segundo o padrão de complexidade, também, algumas das chamadas linguagens primitivas parecem apresentar gramáticas tão complicadas como qualquer uma elaborada pelo homem, em qualquer outro lugar. Os pesquisadores de campo contando as palavras verificaram que nenhuma linguagem tem menos do que vários milhares delas, e a maioria possui um número muito maior”.

O autor enfatiza também (p. 567) que,

“Como o expressa Kroebber: “Toda língua é capaz de modificação e expansão indefinidas e, por isso, está apta a preencher as exigências culturais quase imediatamente”
Um traço notável da especialização da linguagem é a elaboração de vocabulários especiais. Um povo da floresta tende a formar um vocabulário, discriminando minuciosamente as condições de seu modo de vida, isto é, o vento nas árvores, as características das plantas e animais locais. Um povo criador de gado manifesta discriminação semelhante relacionada com o gado e as pastagens. A sociedade industrializada tem uma terminologia detalhada para máquinas e invenções mecânicas, como bem o demonstra esse documento etnograficamente revelador, o catálogo de reembolso postal. Na teoria da padronização (problema 29) de Sapir, demonstra-se bem como cada meio lingüístico tende a incrementar um “estilo” distinto (mas não necessariamente superior) de falar e escrever”.

E é a partir dessa observação que passamos a compreender as diferenças entre muxuangos e mocorongos cada qual com o seu dialeto, a sua maneira de falar, a sua cultura, diante disso, (pgs. 568, 569) o autor exemplifica que,

“Whorf concluiu (1940) que cada língua “acorrenta o pensamento” de quem a fala, por meio dos “padrões involuntários de sua gramática”. Tal gramática “determina” não só o modo pelo qual construímos frases, mas também “o modo pelo qual encaramos a Natureza e destruímos o caleidoscópio da experiência, isolando objetos e entidades, sobre os quais construímos frases”. Recortamos e organizamos a “expansão e o fluxo” dos acontecimentos, como o fazemos generaliza-damente, porque, através de nossa língua, nos comprometemos como “partes de um acordo para assim proceder”, e não porque “a Natureza em si seja segmentada exatamente da mesma forma”.

Keesing, demonstra no capítulo sobre a “Estabilidade e Mutação na Cultura”, (pgs. 580, 581) que:

“O estudo dos sistemas culturais isolados no tempo tem sido atacado muito menos sistematicamente do que o estudo do contato entre as culturas. Pode-se compreender isso tendo em vista que esse último aspecto despertou a atenção dos antropólogos quando as chamadas culturas primitivas começaram a sofrer o impacto da civilização.
Teorias antigas julgavam, geralmente, e chegavam a afirma-lo abertamente, que as culturas em estado de isolamento eram quase totalmente estáticas. Admitiam uma alteração interna ocasional, representada por exemplo por uma “invenção”, mas o quadro geral era de uma tradição estável, transmitida com pequenas modificações, de geração a geração. Poucos povos, fora do âmbito da civilização, poderiam ser considerados como em movimento. Essa suposição de estabilidade cultural nas sociedades isoladas é, hoje, considerada errônea e artificial. Baseava-se primeiramente em impressões populares e, em segundo lugar, em interpretações inadequadas da cultura e da sociedade.
Alguns teóricos da Antropologia foram ao extremo oposto, afirmando que toda cultura está em movimento constante e contínuo. Sem uma explicação adequada, essa afirmação pode levar também ao erro”.

A assimilação e a perda de traços culturais, apesar de serem fatos antagônicos, interagem simultaneamente e isso é exemplificado pelo autor (p. 581):

“Indivíduos e grupos de situações diferentes interatuam e por vezes provocam atritos, chegando mesmo em certos casos a provocarem o desaparecimento de hábitos padronizados. Trata-se de um sistema “aberto”, e não de um sistema “fechado”. Ao mesmo tempo, principalmente quando examinamos as tendências mais amplas, há “mecanismos de autocorreção” que atuam fortemente no sentido da estabilidade e duração: o ensino, a formação de hábitos, a proximidade de pessoas com mesmos costumes, o conjunto de premissas normativas, os valores e as metas que constituem o modo de vida, os fortes laços afetivos que se acumulam em torno das regras e crenças geralmente aceitas. Qualquer sistema cultural em isolamento tende, portanto, a aproximar-se daquilo que se chamou de “equilíbrio”, “estado fixo”, homeostase. Do mesmo modo, as modificações lentas, usualmente voluntárias, que ocorrem dentro de um sistema cultural tendem a tomar um sentido consistente e um caráter que lhes dá o nome de tendência cultural”.

Ele acrescenta também (pgs. 581, 582) que,

“O peso relativo da estabilidade e da mutação em qualquer sistema cultural e mais especificamente em dimensões particulares de comportamento grupal e individual, dentro do sistema, é um assunto a ser investigado. Uma sociedade, numa determinada fase, pode aproximar-se do modelo homeostático. É, porém, uma questão pendente o saber se qualquer sistema cultural mais amplo, tal como “uma cultura”, tomado em conjunto, estará isento de qualquer mutação permanente ou “irreversível”, em determinado período, tais como as mutações lingüísticas, a criatividade artística, os ajustes econômicos à variação dos recursos do habitat externo, as reações às variações biológicas e demográficas como a modificação da composição da população por idade e família. Supõe-se que nenhuma sociedade pode existir sem sofrer inovações culturais no progresso”.

O autor mostra também (p. 583) que,

“Quando as duas culturas em contato são diferentes, o grupo e o indivíduo enfrentam sistemas totais alternativos de integração cultural e estrutura da personalidade”.

Ele assinala ainda (apud, Mc Gee, 1898) (p.583) que:

“O desenvolvimento humano (...) pode ser estimado pela proporção em que os recursos e as idéias são trocados e fertilizados no processo de transferência, isto é, pelo grau de aculturação. Nas culturas mais evoluídas (...) o intercâmbio é cordial e intencional – é a aculturação amigável. Nas culturas inferiores (...) o intercâmbio é hostil e ocasional e pode-se classifica-lo como aculturação pirata”.

E continua informando (p. 584, 585) que:

“Alguns estudiosos usaram a palavra em sentido cultural para mencionar o processo segundo o qual elementos estranhos são totalmente aceitos num novo ambiente cultural, ou seja, quando um costume é “assimilado”. É mais comum, porém, seguirem os antropólogos a técnica sociológica de considerar a assimilação existente quando os membros de um grupo étnico. Do ponto de vista do conjunto da história do homem, esse aspecto tem sido sem dúvida importante, como nos casos de assimilação de povos conquistados ou conquistadores. Nos termos da dinâmica atualmente observáveis, porém, isso é uma raridade, exceto quando se trata de migrantes, individuais ou em família. Os exemplos que poderiam ser citados para ilustrar a assimilação são os do grupo minoritário de imigrantes desligados de sua pátria, um pequeno grupo minoritário rodeado por uma maioria de imigrantes, e a consolidação de elementos heterogêneos num todo nacional ou étnico”.

E ainda (p. 585):

“A aculturação é um processo altamente seletivo no qual o grupo exposto ao contato cultural mantém sua identidade social e, até certo ponto, sua característica e integridade culturais. Já encontramos aqui um exemplo que teve importância na teoria social, o da “sociedade grupal” (Problema 29). Como acontece entre os camponeses latino-americanos, esse meio combina de forma típica, num novo equilíbrio, os remanescentes da vida indígena e os elementos selecionados e reinterpretados de uma tradição externa, predominantemente rural. Quando dois sistemas culturais fundem-se desse modo, formando um novo terceiro sistema distinto, o processo é chamado de fusão cultural. Mas muitas outras combinações podem ser identificadas, e sobre elas formuladas reconstituições teóricas”.

O autor exemplifica (p. 587) que,

“Outro exemplo de aculturação ocorre quando dois sistemas culturais em contato mantêm uma relação mais ou menos simbiótica, cada qual conservando sua identidade e integridade próprias, ao mesmo tempo que assimila mutuamente certos elementos. Isso acontece quase sempre nos casos em que diferenças raciais, étnicas ou lingüísticas impedem a assimilação, (...) mantém suas tradições apesar de sua relação de interdependência dentro de um sistema sócio-cultural amplo”.

Essa mistura de elementos culturais agregados tende a pôr fim em alguns traços culturais que não se mantêm ativos, como define o autor (p. 587):

“O grande número de “frentes” de aculturação no mundo tem em comum certas características variáveis que podem ser utilizadas para o desenvolvimento de tipos mais específicos ou exemplos de contato cultural. Uma dessas características é o alcance temporal. Quando os outros fatores têm o mesmo valor, pode-se afirmar que quanto mais demorado o contato, maior será a aculturação. Na realidade, porém, isso não constitui uma verdade universal. Algumas sociedades, depois de um período de rápida aceitação dos elementos novos, pode modificar sua atitude adotando um movimento “antiaculturativo”, como mais adiante descreveremos, no qual os antigos elementos são revividos. Dentro de determinado período de tempo, um grupo pode assimilar os elementos novos muito rapidamente, ao passo que o outro se mantém firme nos velhos costumes”.

E mostra (p. 595) que,

“De certa forma, a ação “inventiva” ou “inovadora” pode ser considerada como o “átomo”, por assim dizer, da seqüência de comportamento. Esses atos individuais reagrupam a experiência cultural e pessoal numa disposição sempre variante, em torno da norma ou modo grupal. Grande proporção deles provalmente não se repete nunca da mesma forma. Muitos se repetirão, transformando-se em hábitos pessoais e, aqui e ali, uma variação individual do comportamento atrai a atenção dos demais, é repetida e começa a estabelecer uma nova atitude grupal, pelo menos temporária, mas que também pode passar a fazer parte do meio cultural permanente, tal como também pode passar a fazer parte do meio cultural permanente, tal como ocorre por vezes com um dito espirituoso num teatro, uma ferramenta nova, uma nova receita de cozinha, uma interpretação religiosa não formulada antes”.

Mas de que forma esses laços culturais se rompem? O autor mostra (pgs. 598, 599) que:

“A difusão, no sentido historicista, compreende a transferência de elementos de uma cultura para outra. (...) Wissler (1923) distinguiu dois tipos de difusão: a natural, ou baseada em contatos ocasionais ou voluntários; e a “organizada”, quando existe um esforço objetivo e por vezes compulsório na transferência cultural.
Os aspectos inovadores da difusão por estímulo constituem evidentemente, um caso extremo das modificações que devem estar sempre presentes, em certo grau, no comportamento de transferência de grupo a grupo e mesmo de indivíduo a indivíduo.
Um processo de perda cultural ou extinção também foi observado por vários estudantes como parte desse quadro dinâmico. Isso pode ser provocado pelo “deslocamento” dos elementos mais antigos por inovações ou pelo envelhecimento de elementos internos de um sistema. Kroeber (1948), num trabalho que é provavelmente o exame mais sistemático de perda cultural, cita exemplos de como as limitações de ambiente, declínio de habilidade, redução de população ou empobrecimento podem provocar o declínio ou desaparecimento de elementos culturais”.

O autor mostra também (pgs. 600, 601) que:

“O trabalho inclui também o exame do desaparecimento mais ou menos total de um sistema cultural ou o que por analogia ele chama de “morte cultural”. Kroeber observa, porém, que a parte a extinção total de um grupo, que é rara (por exemplo, os aborígenes da Tasmânia) a sociedade em questão continua existindo, como aconteceu no Egito ou Grécia. O que ocorre, portanto, é a “dissolução de um determinado conteúdo ou reunião cultural, configurado numa série de aspectos próprios mais ou menos únicos”, pertencente àquela sociedade em tempos passados”.

Keesing acrescenta (pgs. 600, 601) que,

“O processo de modificação em elementos novos e antigos, em condições dinâmicas, foi sumariado por diferentes estudiosos numa série de conceitos correlatos, entre os quais o ajuste, a readaptação, a reorientação, a reinterpretação, a indigenização, a sincretização (fusão), a síntese e (o que preferimos) a reformulação. O próprio número desses termos, talvez alarmante para o principiante da teoria, indica o grande interesse em identificar esses processos. Na verdade, quatro alternativas principais são possíveis:
1 – Adoção de novos elementos culturais.
2 – Rejeição de novos elementos culturais.
3 – Retenção de elementos culturais antigos.
4 – Abandono dos elementos culturais antigos”.

E declara ainda (p. 606) que:

“Em casos extremos, indivíduos e grupos sofreram, ou estão em processo de sofrer, a experiência de ter todo o sistema de valores ameaçado ou destruído, catastroficamente ou através de prolongada série de crises. O efeito pode ser semelhante ao de um terremoto: a cultura e personalidade podem chegar a extremos de desorganização; a mutação, especialmente a perda, tende a ir cada vez mais rápida e mais longe. A reformulação e reintegração do sistema de vida são mais difíceis – e disso resulta a morte cultural, tal como a chamou Kroeber”.

Diante desse quadro o homem finalmente encontra um novo modelo de cultura. E Keesing explica todo esse processo (p. 610):

“Essa hipótese de uma perda geral da vontade de viver tem sido objeto de muita controvérsia, mas sob certo ponto pode ter validade como uma forma de exemplo psicológico relativo à baixa moral, falta de auto-respeito e confiança, tendência à apatia e mesmo à falta de esperança, sentimento de ser incapaz de voltar à antiga forma de vida ou encontrar uma nova – todos os estados de espírito que tornam extremos os casos de desintegração pessoal e cultural”.

E conclui (p. 611):

“Pais e anciãos podem ser “conservadores” e os grupos de idade mais jovens, “progressistas”. As comunidades próximas dos centros urbanos podem inclinar-se mais fortemente para as modificações, ao passo que as comunidades rurais se mantêm estacionadas.
Notamos anteriormente que o estudo do indivíduo na cultura, do ponto de vista teórico, tal como o de Mead, Benedict, Linton e Kardiner, concentrou-se quase exclusivamente na maneira como a personalidade ou o caráter se modela segundo as formas de uma cultura estável. O principal modelo utilizado foi o da “enculturação” positiva em relação a um único sistema cultural, embora se deva levar em conta algum desvio ou “anormalidade”.

Uma característica peculiar da Baixada Campista está no linguajar. E algumas dessas palavras se tornaram tão marcantes que até hoje ainda são pronunciadas pelos homens dos séculos XX e XXI.
Cabe ao pesquisador, verificar na lingüística os modos, as maneiras, as regras gramaticais, os dialetos ditos e proferidos pelos muxuangos e mocorongos, e Marconi e Presotto (p. 26) informa que:

“De todos os ramos da Antropologia Cultural, a lingüística é o mais auto-suficiente em função da independência que envolve o seu conhecimento. A linguagem é um meio de comunicação e também um instrumento de pensamento. A grande diversidade de línguas acompanha a grande variedade de culturas, cada uma delas com suas formas, e estruturas básicas definidas”.

Passados quase cinqüenta anos desde a instalação da primeira estação de rádio no município, o povo campista passou a ouvir, compreender e transmitir novas informações em uma linguagem bem diferente daquela que ele falava. E hoje o que nós pesquisadores percebemos nessa série de expedições à Baixada Campista, é que o campista da zona rural já absorveu boa parte das novas normas e regras gramaticais da língua portuguesa, mesmo que, alguns deles nunca tenham sentado sequer num banco ou numa cadeira escolar. O que ocorreu é fato, a mídia modificou o linguajar do homem do campo.
Mesmo assim, entre algumas das pessoas com quem tivemos contato, pudemos perceber e ouvir expressões, palavras e construções de frases completamente disformes em relação à norma culta da língua portuguesa, transmitida por pedagogos e professores.
Dentre a maioria dos entrevistados uma pessoa se notabilizou e chamou a atenção de um dos pesquisadores, Alaíde Vital, da localidade de Mineiros, que com seus 93 anos, confessou nunca ter ido à escola para se alfabetizar, e mesmo assim não cometeu nenhum deslize ou vício de linguagem nas suas declarações. Já entre os outros entrevistados pudemos perceber que quase todos tinham a característica de colocar os pronomes possessivos após o verbo. Essas pessoas, entretanto, é que nos deram pistas e passaram informações a respeito de palavras e combinações diferentes de vocábulos para expressar e dar idéia de algo.
Além disso, todos os entrevistados sem perceber foram analisados meticulosamente, deixaram transparecer algumas construções idiomáticas, como o fato de ao responderem as perguntas dos pesquisadores, perguntavam e terminavam as frases com o vocábulo interrogativo né, que nada mais é do que a junção de não + é, e dando a entender que o pesquisador que havia feito a pergunta também conhece o fato.

não = advérbio de negação.
é = verbo Ser na 3ª pessoa do singular do presente do indicativo.

Uma construção que chamou por completo a nossa atenção foi quando o Antônio de Zinho, de Caboio, falou que nós deveríamos ir a algum lugar para tomar direção, que nada mais é do que pedir informação. Isso sem falar que nós deveríamos curvar a estrada, como se qualquer um dos pesquisadores pudesse pegar a estrada com as mãos e curvá-la, quando na verdade ele queria dizer que nós deveríamos fazer algo, após fazermos a curva.
Uma palavra que é o verdadeiro cartão-postal de todo campista e pronunciada quando quer dizer que alguém é ruim, é o famoso cabrunco. No livro “O Homem e o Brejo”, de Alberto Ribeiro Lamego, na página 98, o autor e pesquisador campista nos conta que a origem da palavra é proveniente de uma doença que atinge o gado bovino. O carbúnculo, essa doença contagiosa é transmitida ao homem através do contato com o couro de algum animal infectado pela doença. Mas como o homem do campo, ignorante no linguajar não compreende o nome da doença ele provavelmente ao transmitir a informação para outro cidadão acabava pronunciando a palavra de forma incorreta, e o carbúnculo, vira cabrúnculo, passando posteriormente a pronúncia que hoje conhecemos, o cabrunco.

Carbúnculo => cabrúnculo => cabrunco

Ao compreender o significado da doença, podemos definir que cabrunco é o ato de querer aproveitar algo (couro) de alguém (vaca) morto com o mal (doença).
Mas o linguajar dos habitantes da Baixada Campista que foi todo calcado em palavras ditas e pronunciadas por muxuangos e mocorongos, também possui outras tantas palavras para denominar objetos, brinquedos, costumes, etc.
Outro fato que chamou a atenção dos pesquisadores foi como as pessoas informam o nome de outrem a partir do momento que não sabem o verdadeiro sobrenome. Eles simplesmente anexam o nome do pai ao nome do filho, independente da geração, e muitas vezes também, anexam a profissão ou a atividade laborial da pessoa a quem se deve procurar.
Essa relação pode ser vista e ouvida na transcrição abaixo, em uma informação que Antônio Franco Machado, mais conhecido como Antônio de Zinho, (veja aqui um exemplo), fala a respeito de seu amigo, Aristides:

“É, Aristides de Joca, o pai dele chamava Joca, não sei Aristides de quê, deve ser Ribeiro, mas nós conhecemos ele como Aristides de Joca”.

Curiosamente, esse fato mostrou que a sociedade ainda mantém traços de uma cultura e da relação na maioria das vezes, daqueles que viveram na época dos engenhos e dos sinhôzinhos. Além de demonstrar que a pessoa informada ou toda a sociedade da zona rural ainda mantém uma identidade patriarcal na família.
Em seu livro “Folclore do Brasil”, (p. 18) o historiador Luís da Câmara Cascudo, define que as atitudes e os modos de falar dos homens do interior de hoje nada mais são do que reflexos de hábitos utilizados há quinze ou vinte séculos atrás.

“Nós nos saudamos na rua como há quinze ou vinte séculos atrás. No ponto de vista da linguagem o povo não fala errado. Fala ao jeito dos séculos XV e XVI. Os nossos filólogos já têm salientado o sabor arcaico dessa linguagem, da sintaxe esquecida, mas antigamente legítima, mantida pelo povo. Cláudio Basto (1886-1945), eminente etnógrafo de Portugal, convencera-se: - “O povo é um clássico que sobrevive”, afirmara.”

Se por um lado os pesquisadores encontraram dificuldades em encontrar nas falas dos entrevistados características marcantes do linguajar campista, por outro lado eles conseguiram descobrir em pouquíssimos livros sobre esse assunto material suficiente para abrilhantar a pesquisa.
No livro “Crônicas & Causos” (p. 111), o autor Gil Wagner Quintanilha mostra uma diversidade de elementos e construções de palavras que foram esquecidas do povo da Baixada Campista. Em um desses exemplos ele narra que:

“(...) certa vez apareceu no cartório de meu pai, um lavrador da redondeza pedindo uma providência contra o noivo da filha, “que se autorizou dela, embora com o casamento marcado”. Mais tarde, num almoço, o dono da casa saiu-se com aquela: “Gente, vocês se autorizem da comida à vontade, sem cerimônia”. Daí para diante é que vim compreender o exato significado desse verbo empregado pronominalmente: “autorizar-se”, nesse particular, quer dizer usar e abusar, sem receio, de alguma coisa. Consultei os dicionários e não localizei o registro sob tal acepção”.

Outra expressão utilizada era “gingo” ou “jingo” que tinha o significado de pirracento, teimoso, empacado ou embirrado. O mesmo fato se dá com a palavra “ico”, que dependendo do substantivo dava-lhe um novo significado, como por exemplo:

Carne ica (carne dura) – menino ico (menino teimoso)
burro ico (burro empacado, embirrento)

Mas o campista tem também expressões que, assim como o famoso “cabrunco”, marcaram época como por exemplo o “de já hoje”, ou “de já hojinho”, que significa que alguém ou algum fato ocorreu a poucos instantes, e o autor exemplifica assim (pgs. 111, 112),

“Acerca do famigerado “de já hojinho”, antes peço vênia ao meu amigo Dr. José dos Santos Silva, que o arrolou no seu “Di-já-hojinho”. Pelo menos o “desde já hoje” já está em o “Novo Dicionário Aurélio”, no verbete “já”, desse modo: “desde já hoje. Desde muito”. Por certo que haverá quem critique esse “hojinho”, como diminutivo de um advérbio (hoje), sabido que este é invariável.
Que me seja permitido entender que é uma forma para dar a idéia de um fato mais recente, como sucede com o “agorinha mesmo”, que o cit. Aurélio incluiu no seu referido léxico. Agora não é também um advérbio? Está, no entanto, aí flexionado para o diminutivo. E Antenor Nascente, no seu “Dic. Ilust. da L. Portuguesa”, igualmente insere agorinha = “há poucos instantes”, e mais, como diminutivo de agora”.

Outra expressão muito utilizada e que até hoje se ouve é “gastura”, que significa ter uma irritação nervosa ou arrepio provocado por um som ou um ruído irritante. Como o da fricção das unhas dos dedos no quadro-negro.
Apesar das novas tecnologias, do avanço da informática, a cultura televisiva o campista quando está longe de sua terra não esquece das suas raízes como conta o autor nesse trecho do mesmo livro (p. 113):

“Conheço, por exemplo, o caso de certo campista de Santo Amaro: andava ele numa calçada de Porto Alegre, quando ouviu dois senhores que lhe iam pouco adiante, tendo um, de repente, respondido ao outro assim: - “Rapaz, aquilo é um “lamparão”de teimoso. Aquele “tisgo” é muito “ico”. O santamarense não agüentou e bateu no ombro do autor daquela saborosa frase: - Se mal lhe pergunto, o senhor é de Campos?”. Veio logo a sorridente resposta afirmativa, com a gozação do emprego do “se mal lhe pergunto”, que o perguntador logo viu no perguntante como identificação da gente dos arredores: fala em tom alto e despreocupado, próprio das pessoas francas e tranqüilas”.

As palavras quando criadas tão ao natural muitas vezes caem no gosto popular e a partir de então são utilizadas tantas vezes que com o tempo o campista acaba esquecendo o modismo e a coloca de lado. Há outras palavras também como narra o autor. Como por exemplo, “gibilado”, ao qual o autor exemplifica desse modo (p. 112):

“Sempre me causou espécie ouvir um tal de “gibilado”, nessa dicção: “esse menino é muito gibilado”, no sentido de astuto, vivo, escolado. Pensei em “jubilado”, que era o aluno que se formava por muita experiência ou tempo na escola; era um experiente, um escolado. Seria essa origem? Seja como for, escreva-se “gibilado” ou “jibilado”, o certo é que o termo corre mundo na Baixada Campista sob essa significação”.

Algumas expressões citadas pelo autor foram ouvidas até meados da década de 70 do século passado. Como por exemplo:

Goderar – comer com os olhos; ficar com água na boca, enquanto vê outro comendo.
Correr do páreo – roer as cordas – não manter a palavra.
Pau-de-amarrar-égua – sujeito que serve ou se presta para qualquer coisa.
Nossos cachorros não caçam juntos – não nos damos bem.
Murchar as orelhas – baixar o rabo – ficar com o rabo entre as pernas – ouvir desaforo, calado, covardemente.
Com a boca na botija – pegado em flagrante, na prática de ato ilícito.
Não pregar prego sem estopa – não dar ponto sem nó – não agir sem visar proveito próprio.
Olho viu, boca andou – viu comida, quer logo comer.
No tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça – época da vaca gorda, época da fartura.
Lavar a égua – levar muita vantagem
Não estar na casa da sogra – não estar à vontade – não poder abusar.
Como é a sua graça? – qual é o seu nome? - qual é o seu nome de batismo?
Como vai a obrigação? – como vai a família? (família é a primeira obrigação do homem).
Deitar-se com as galinhas – deitar-se cedo.
Fora os que mamou – observação que se faz quando alguém informa, diminuída, a idade que tem (fora os anos que mamou).
Vai ver se estou lá fora – maneira de mandar sair alguém cuja presença não interessa no momento.
Virar bicho – esquentar-se, zangar-se.
Bananeira-que-já-deu-cacho – alguém que se tornou imprestável pela idade.
Filho feio não tem pai – de um ato condenável não se apresenta o autor.
Cagado ao pai – igualzinho a este.
Ter cabelo na venta – rixento, bravo, esquerdo.
Que instrumento o senhor toca? – indagação do pai ao pretendente a casar-se com a sua filha, ou quando se indaga a um desconhecido qual a sua profissão.
Fulano é uma pêra – é uma seda – é um exagero de sensível, zanga-se à toa.
Manteiga derretida – quem chora à toa.
Na hora-do-pega-prá-capá – na hora-da-onça-beber-água – no momento decisivo.
Metido a sebo – metido a importante; metido a besta.
Maior-de-espada – é o trunfo que se guarda para a hora certa – o recurso que se esconde para uso no momento decisivo.
Tirar-o-pé-da-lama – melhorar as finanças.
Urubu, quando de azar, até o de baixo caga nele – pessoa que quando está infeliz nos negócios e em tudo; está com urubucubaca.
Cabeça de vento – leviano, estouvado, imprudente.
Serelepe – buliçoso, irrequieto, provocante, astucioso.
Cuspir no prato que comeu – sujar a água que bebe – ser ingrato ou mal agradecido.

O campista da Baixada também foi pródigo em encontrar e mostrar o cotidiano, ou definir situações como em “aguado”, Quintanilha (pgs. 116, 117) explica desse modo:

“Ouvia, em criança, um cara dizer: - ‘Retire esta égua daí porque o cavalo do outro lado da cerca acaba ficando aguado’. Explicaram-me depois que a égua estava no cio, e, por isso, o macho estava indócil, resfolegante e escoiceando o ar, espumando de ódio por causa do obstáculo da cerca alta que não lhe dava condições de pular. Aos poucos, depois, ele ia perdendo as forças e caía em “aguamento”, que é uma doença conseqüente de esforços em excesso. Explicou-me ainda o explicador – certamente para pilheriar – que o homem também pode ficar “aguado”. Este termo, de resto, em qualquer dicionário significa frustrado. E não foi o que ocorreu com o cavalo em foco?
E, a propósito, existe uma outra situação, ocorrente sempre entre crianças, que faz lembrar o “aguamento” do cavalo. É um brasileirismo muito ouvido no interior do nosso município. Trata-se do verbo “goderar”. Já ouvi muitos pitos desse modo: - “Menino, saia de perto dessa mesa de doces e vá lá pra fora. Pare de ficar goderando. Aguarde a sua vez”. Enquanto isso, a criança fica engolindo cuspe, porque com a boca cheia de saliva, vendo os outros comendo à vontade. É o que se chama de comer com os olhos, que não enche barriga”.

Infelizmente, estas expressões sumiram do cotidiano da Baixada Campista na medida em que a televisão, o rádio e a internet mudaram toda a estrutura do pensamento comunicacional dos campistas de um modo geral e torna-se difícil, quase que impossível encontrar algum fragmento cultural do linguajar da Baixada, porque o povo já absorveu em seu seio a nova linguagem universal, a linguagem portuguesa e americana, através dos veículos e dos meios de comunicação.